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Segunda-Feira, 18 de novembro de 2019

Golpe na democracia

COLUNISTAS Olívia Tenório

Advogada e atual Secretária Adjunta da SEDETUR/AL

Golpe na democracia

Golpe na democracia

(Imagem: divulgação)

 

A declaração do ex-presidente Michel Temer no programa “Roda Viva” da TV Cultura, na última segunda-feira (16), lança luz aos acontecimentos do processo de impeachment de Dilma Rousseff. Ao dizer que “jamais apoiei ou fiz empenho pelo golpe”, ele reconhece, então, a existência de um golpe. Em suas próprias palavras.

Ainda em tempo, é preciso refletir sobre a gravidade da declaração. A nossa democracia é jovem, tenta caminhar com passos tímidos desde 1985 e se encontra cada vez mais fragilizada quando motivos pessoais são utilizados para questioná-la. Devemos compreender que esta ameaça não atinge apenas os adversários, não é uma carta para se usar quando for conveniente: enfraquecer a democracia e as nossas instituições coloca todos nós igualmente em risco. O respeito, algo que prego aqui desde o início, fundamenta a forma democrática de governar e conviver. Cabe às instituições fortalecer o sistema que vivemos e aceitamos, sabotá-las é, também, uma auto sabotagem.

Sempre existirá oposição ao poder (afinal, não estamos falando de regimes autoritários) e cabe ao povo escolher com sabedoria quem está apto para representá-lo. Na democracia representativa elegemos os nossos candidatos. Nos últimos anos o pensamento de que devemos tirar do poder quando não estamos satisfeitos se fortaleceu, passamos a enxergar a política como uma empresa e a ideia é extremamente nociva: não é a função de um representante fazer o que eu quero, ele é quem vai atuar por mim com liberdade e autonomia.

Se trocamos um candidato eleito por seu vice ou por outra pessoa e a ameaça de alteração diante de insatisfação permanece, não estamos nos responsabilizando por nossas escolhas, tomamos decisões sem uma pesquisa aprofundada, com a ideia de mudança já pairando no horizonte. A nossa democracia já tem uma forma natural de atender insatisfações e alterar os representantes: o processo eleitoral no seu devido tempo.

Michel Temer ainda afirma que “a movimentação popular era tão intensa que os partidos já estavam mais ou menos vocacionados para a ideia do impedimento”, esclarecendo que foi parte de um processo político e econômico, onde realmente pode estar longe do posto de protagonista, mas ainda cabe refletir sobre a sua possível atuação enquanto peça.

Existem mais atores e interesses por trás da saída de Dilma do que aqueles que são de fato midiatizados. Hoje, já passamos pelo PT, pelo PMDB e atualmente pelo PSL, mas o norte deve ser o mesmo: não se faz política para eliminar a oposição, não se troca representantes porque um grupo não está satisfeito. Não se expurga o poder exclusivamente por não gostar da pessoa, não é válido escolher um motivo (apenas por escolher) para tirar alguém de um cargo.

Sabemos de nossa história e é importante não deixar nossas tragédias caírem no esquecimento. Retirar uma pessoa democraticamente eleita para atender interesses políticos é uma mácula que vai ficar para a nossa história. E ela sempre se lembra, se repete e nos cobra, mesmo quando estamos do outro lado.

Confira abaixo a entrevista completa com o ex presidente Michel Temer: