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Quarta-Feira, 11 de março de 2026

Brasil

Crime organizado: Por que a Lei Antiterrorismo não enquadra as facções? Entenda debate

Governo do Brasil tenta impedir que os EUA classifiquem facções criminosas do país como terroristas. Lei brasileira não enquadra ação de grupos como CV e PCC como terrorismo. Mas a oposição quer mudar definição, apoia classificação dos EUA e aposta nesta pauta.

Crime organizado: Por que a Lei Antiterrorismo não enquadra as facções? Entenda debate

Presos fazem rebelião na Penitenciária de Junqueirópolis, em São Paulo, em 14 de maio de 2006. O motim começou às 7 da manhã, quando familiares entravam para a visita. Os rebelados subiram no telhado e prenderam faixas na caixa d´água com os dizeres: 'PCC, paz, justiça e liberdade' e 'Contra a Opressão' (Imagem: Alex Silva/Estadão Conteúdo/Arquivo)

A tentativa do Brasil de impedir que os Estados Unidos classifiquem facções criminosas brasileiras como Organizações Terroristas Estrangeiras (FTO, na sigla em inglês) reflete o que diz a legislação nacional. Isso porque grupos como o Primeiro Comando da Capital (PCC) e o Comando Vermelho (CV) não são considerados organizações terroristas, explicam especialistas (leia mais abaixo).

 

➡️Contexto: em ligação com Marco Rubio neste domingo (8), Mauro Vieira tentou barrar a classificação de facções como Organizações Terroristas Estrangeiras. O pedido é que os EUA esperem o encontro entre Trump e Lula para avançarem com o tema.

Na legislação brasileira, terrorismo é definido pela prática de atos violentos "por razões de xenofobia, discriminação ou preconceito de raça, cor, etnia e religião, quando cometidos com a finalidade de provocar terror social ou generalizado, expondo a perigo pessoa, patrimônio ou a paz pública".

Em maio do ano passado, após ser questionado por uma comitiva americana sobre o assunto em uma reunião no Minstério da Justiça, o então secretário nacional de Segurança Pública, Mario Sabburro, explicou a diferenciação brasileira.

“Estas organizações criminosas [brasileiras] não têm qualquer viés ideológico, não têm qualquer viés político, religioso, não querem mudar o sistema. Muito pelo contrário, elas pretendem a prática de infrações penais, lavagem de dinheiro”, afirmou o secretário.
 

Ou seja, a motivação é o que diferencia um grupo terrorista de uma facção criminosa no Brasil. Terroristas costumam buscar fins ideológicos ou políticos, enquanto facções como o PCC ou o CV visam o lucro, especialmente por meio do tráfico de drogas, armas e crimes financeiros.

Thiago Bottino, professor de Direito da Fundação Getúlio Vargas do Rio, explica ao g1 que a busca pela desestabilização do Estado é outro fator para diferenciar facções criminosas de grupos terroristas.

"Um ato terrorista quer desestabilizar o governo. Já organizações criminosas como as nossas não querem desestabilizar governo nenhum, muito pelo contrário. Quanto mais estável for a situação, melhor para atividades criminosas deles", diz.
 

Porém, nos EUA, o conceito de organização terrorista é mais genérico, e o presidente tem mais poder para aplicar esta definição. Um dos critérios é "representar ameaça à segurança de cidadãos ou à segurança nacional dos EUA".

Trump se aproveitou disso para declarar como organizações terroristas, por exemplo, o grupo criminoso venezuelano Tren de Aragua e seis cartéis mexicanos.

Fontes diplomáticas dizem que a diferença dos conceitos é um dos argumentos que o país deve usar para barrar neste momento a reclassificação dos EUA. Além disso, o governo Lula prepara um dossiê para comprovar aos EUA que o país tem ações contra o crime organizado.

 

Como esse debate pode impactar as eleições?

 

Há uma diferença entre a visão do governo, de esquerda, e a da oposição, de direita. Partidos de direita já vinham tentando mudar a classificação do crime organizado como terrorismo no Brasil. Além da tentativa de incluir a equivalência no projeto de Lei Antifacção, há outros projetos que tramitam no Congresso.

Diante do debate pela classificação nos EUA, apoiada pela oposição, essa divergência pode afetar a corrida eleitoral de 2026, diz Hilton Fernandes, cientista político e professor da Faculdade Escola de Sociologia e Política de São Paulo (FespSP).

"Historicamente, nós temos a segurança como um problema que aparece nas eleições mais relacionado ao governo estadual. Mas, com essa situação, o foco fica mais nacional", explica.

Fernandes vê também que a oposição pode usar a tentativa de mudar os planos dos EUA como combustível para indicar que o governo tentaria "proteger as facções criminosas".

"No discurso eleitoral, o que provavelmente vai acontecer e já está acontecendo - a gente vê isso nas redes sociais - é um uso da situação para classificar o governo brasileiro como o governo que protege as quadrilhas, que protege as organizações criminosas", diz.
 

Pensando na campanha, Fernandes afirma o governo deve tentar fugir do tema colocado desta forma.

"É uma armadilha muito grande, porque se começar a falar muito do assunto, ele vira a pauta. E já não é de hoje que a segurança é um problema para o governo federal", afirma.

Para Fernandes, o governo pode ter problemas se, por estratégia de campanha ou para evitar as investidas da oposição, incluir o crime organizado na lei antiterrorista brasileira ou apoiar a inclusão na lista dos EUA.

"Existe uma responsabilidade jurídica, mudaria uma série de questões em outras leis, então isso poderia virar uma bola de neve e até ser contra o governo. Então é arriscado, talvez não seja a melhor solução", afirma.
 

Bottino aponta também que uma eventual alteração para a inclusão das facções pode ser barrada pelo Supremo Tribunal Federal (STF).

"A definição da lei é muito precisa. Fala que o que uma organização terrorista quer é fazer as pessoas ficarem com medo e tem sempre essa pauta política. Então, eu posso, por exemplo, mudar a lei e dizer que a partir de agora terrorismo é torcer para o Flamengo. Mas o que vai acontecer? Essa lei vai chegar no Supremo que vai falar que ela é inconstitucional", afirma.
 

E o que acontece se os EUA enquadrarem PCC e CV como terroristas?

 

Segundo Alexandre Coelho, coordenador do curso de Pós-Graduação em Política e Relações Internacionais, da FESPSP, a classificação das facções como FTO pode ter como consequência:

  • congelamento de ativos em jurisdições conectadas ao sistema financeiro internacional;
  • ampliação de sanções a empresas do país de origem envolvidas com as organizações.
  • pedidos de maior cooperação judicial e policial com autoridades norte-americanas.
 

Para Coelho, isso amplia a capacidade de atuação extraterritorial dos EUA em investigações e mecanismos de repressão financeira.

"Para o Brasil, portanto, a preocupação não é apenas jurídica, mas também política e diplomática: aceitar essa classificação poderia abrir precedentes para maior influência externa na gestão de um problema que o país entende como crime organizado doméstico e transnacional, e não como terrorismo internacional", afirma.
 

Presos fazem rebelião na Penitenciária de Junqueirópolis, em São Paulo, em 14 de maio de 2006. O motim começou às 7 da manhã, quando familiares entravam para a visita. Os rebelados subiram no telhado e prenderam faixas na caixa d´água com os dizeres: 'PCC, paz, justiça e liberdade' e 'Contra a Opressão' — Foto: Alex Silva/Estadão Conteúdo/Arquivo

*G1/São Paulo