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Sábado, 07 de fevereiro de 2026

Brasil

Estado com mais mortes violentas, Ceará tem cidade sem homicídios há 10 anos

O município de Baixio é a única cidade do Ceará que não registra há mais de uma década crimes como feminicídio, latrocínio, lesão corporal seguida de morte e homicídio doloso. Conforme a Secretaria da Segurança, o último assassinato na cidade ocorreu em 21/10/2010.

Estado com mais mortes violentas, Ceará tem cidade sem homicídios há 10 anos

(Imagem: Divulgação/Prefeitura de Baixio)

Uma cidade em que ainda se pode ficar na calçada até tarde conversando com os vizinhos, enquanto crianças brincam nas ruas sem medo. Assim é Baixio, município do interior do Ceará que não registra, há mais de uma década, mortes violentas como feminicídio, homicídio doloso, latrocínio ou lesão corporal seguida de morte.

➡️ Um levantamento feito pelo g1 com dados do Ministério da Justiça e Segurança Pública mostra que Baixio não registrou mortes violentas entre os anos de 2015 e 2025. Esse período pode ser maior, de acordo com a Secretaria da Segurança Pública do Ceará (SSPDS). Conforme a pasta, o último crime violento na cidade ocorreu em 21/10/2010.

A cidade de Baixio vai na contramão do estado, pois o Ceará lidera o ranking nacional de assassinatos por 100 mil habitantes em 2025, segundo dados divulgados no último dia 20 pelo Ministério da Justiça e Segurança Pública. O levantamento, feito pelo g1, considera crimes como homicídios, feminicídios, latrocínios e lesões corporais seguidas de morte.

No Ceará, a média é de 32,6 mortes violentas para 100 mil habitantes - mais que o dobro da taxa do Brasil, que é de 15,97%. Ao todo, foram registrados 3.022 assassinatos no Ceará em 2025, dos quais 96,9% correspondem a homicídios dolosos — quando há intenção de matar. Em todo o país foram 34.086 mortes violentas e a taxa nacional por 100 mil habitantes é de 15,97.
 

Baixio fica a cerca de 415 quilômetros de Fortaleza, é a terceira menos populosa do estado: tem 5.821 habitantes, de acordo com dados de 2025 do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) e fica atrás apenas de Granjeiro e São João do Jaguaribe. Ela faz divisa com o estado da Paraíba e as cidades cearenses de Umari, Ipaumirim e Lavras da Mangabeira.

A principal atividade econômica da cidade é a agricultura e lá não tem delegacia. Três agentes da Polícia Militar fazem revezamento para monitorar a cidade 24 horas.

"Desde a minha infância nunca tive privação em relação à brincadeira na rua. Sempre foi tranquilo, sempre fui livre. Aqui na cidade tem uma cultura forte em relação ao esporte, principalmente futebol e corrida", diz João Pedro, estudante de 20 anos.
 
"Você anda tranquilo, não tem o risco de ser abordado por um assaltante. Aqui na minha rua mesmo, a vizinhança costuma ficar sentada até 23h. As crianças brincam tranquilamente", diz Ana Meyrice, agente administrativa de 44 anos.
 
 

 Mas como é possível uma cidade manter-se por tanto tempo sem registrar assassinatos? De acordo com a Prefeitura, os resultados positivos estão relacionados a um conjunto de fatores, como:

  • Trabalho integrado entre as políticas públicas;
  • Ações de prevenção à violência doméstica;
  • Fortalecimento dos vínculos familiares e comunitários;
  • Parceria com outras áreas e instituições.
 

Harley Filho, da Secretaria da Segurança Pública e Defesa Social do Estado do Ceará (SSPDS), explica que o investimento em profissionais e tecnologia e a integração entre a polícia cearense e a paraibana também ajudam a manter os índices positivos.

Especialistas consultados pelo g1 apontam que investimentos em políticas de educação, saúde, esporte, lazer e cultura contribuem para a redução da violência. Ainda assim, o município não está isento da chegada das facções criminosas e das drogas (entenda mais abaixo).

— Foto 1: Reprodução/Ibge — Foto 2: Divulgação/Prefeitura de Baixio

Três pontos para entender números

 

O coordenador da Coordenadoria Integrada e Planejamento Operacional (Copol) da Secretaria da Segurança Pública do Ceará, Harley Filho, explica que a 'receita de sucesso' está em três elementos principais: a população pequena de Baixio, que fortalece a ideia de que 'todo mundo se conhece', o investimento em segurança pública e o trabalho integrado com a polícia da Paraíba.

"Baixio, Umari e Ipaumirim são oriundos do município de Lavras da Mangabeira. Ao longo dos anos 40/60, eles foram se emancipando. Uma expressão utilizada pelo comandante local [para se referir às três cidades] é 'Três Marias', porque costuma ser muito tranquilo", revela Harley.

De acordo com o representante da SSPDS, a baixa taxa populacional de Baixio facilita a comunicação entre os moradores e os policiais da cidade, fortalecendo um vínculo de confiança.

"Se chega alguém de fora, por exemplo, ligeiramente chama a atenção. Foi o que aconteceu em Umari, onde teve uma intervenção recente. Duas pessoas oriundas da Paraíba, da facção Okaida, estiveram no município e a população já identificou como gente de fora. Em Baixio, não é diferente: toda e qualquer pessoa estranha já gera essa dúvida e o pessoal faz essa comunicação imediata com os policiais".

Baixio conta, atualmente, com um destacamento da Polícia Militar, uma viatura e três policiais que atuam 24 horas. Para Harley, a equipe é suficiente, embora os agentes possam contar também com a polícia das cidades vizinhas e com apoio de uma base do RAIO instalada em Ipaumirim. Eles também estão em constante contato com profissionais da Paraíba.

"Todo mundo se conhece, todo mundo respeita e confia na Polícia Militar. Qualquer dúvida, entram em contato até mesmo no telefone particular do policial. Para se ter uma ideia, o sentimento de união é tão grande que nesse dia da intervenção em Umari, os policiais de folga [de Baixio] tomaram conhecimento, colocaram colete e foram para a ocorrência [dar apoio]", exemplifica Harley Filho.

Outra estratégia revelada pela SSPDS é o trabalho preventivo realizado nas escolas do município. Frequentemente, agentes da Polícia Militar vão às salas de aula trabalhar o Programa Educacional de Resistência às Drogas e à Violência (PROERD). Harley afirma que não há registros de atuação de grupos criminosos em Baixio e policiais não identificaram, até agora, locais de comercialização de drogas.

Ainda conforme o coordenador, a cidade tem apenas dois mandados de prisão em aberto: um por estupro de 2012, e outro de 2017, por roubo. Os suspeitos ainda não foram presos. A SSPDS não soube informar quanto foi investido nos últimos cinco anos na cidade na área da segurança, mas acredita que o trabalho de inteligência realizado em todo o Ceará influencia na ausência de crimes em Baixio.

"A população meio que se acostumou a viver em plena tranquilidade. Obviamente deve ter pequenos furtos de galinhas, outros animais, alguma coisa de desentendimento [entre vizinhos]. Mas nada que vá afetar realmente essa tranquilidade no município", reforça.

Para Harley, a cidade é um exemplo a ser replicado no estado do Ceará, embora cidades mais populosas sejam grandes desafios. No estado, as cidades de Fortaleza, Caucaia, Maracanaú, Sobrale Maranguape foram os municípios com mais mortes violentas em 2025.

A Grande Fortaleza concentrou 1.645 homicídios em 2025, o que representa aproximadamente 54% de todas as mortes violentas registradas no Ceará. A capital lidera o ranking estadual, com 742 homicídios, seguida por Caucaia e Maracanaú.

Acho que o que está dando certo a gente não altera. Baixio tem um trabalho de prevenção muito forte e a quantidade de policiais está sendo suficiente para a quantidade de população (...) É um case de sucesso, mas não podemos deixar de apontar que temos 13 municípios sem o registro de CVLIs há mais de dois anos. São casos que realmente merecem a atenção do Estado para saber o porquê do sucesso e nós tentarmos ampliar as boas práticas em outros municípios.
— Harley Filho, coordenador da Coordenadoria Integrada e Planejamento Operacional (Copol).

Municípios sem registro de Crimes Violentos Letais Intencionais (CVLI) no Ceará

Cidade Data do último crime violento
Baixio 21/10/2010
Granjeiro 15/04/2020
Umari 07/04/2023
Ereré 12/07/2023
Alcântaras 24/12/2023
Guaramiranga 14/04/2024
Palhano 18/05/2024
Ipaumirim 20/07/2024
Hidrolândia 24/07/2024
Penaforte 01/08/2024
Moraújo 06/09/2024
Caririaçu 08/09/2024
Antonina do Norte 21/09/2024
Abaiara 09/12/2024

Trabalho entre setrores no município fortalece segurança

 
Cidade de Baixio é a terceira menos populosa do Ceará. — Foto: Divulgação e Cícero Coutinho

Cidade de Baixio é a terceira menos populosa do Ceará. — Foto: Divulgação e Cícero Coutinho

Ivana Ferreira Farias , titular da Secretaria de Assistência Social de Baixio, corrobora com os pontos apontados pelo delegado. Para ela, os bons índices de segurança do município são atribuídos ao 'trabalho intersetorial' em que a família e a comunidade são o centro de tudo.

"É um conjunto de fatores, é claro: o trabalho integrado entre as políticas públicas, a atuação em rede, ações de prevenção e, principalmente, o fortalecimento dos vínculos familiares e comunitários. A gente tem uma parceria muito bacana, tanto com a Saúde, como com o Conselho Tutelar, a Educação também, e Cultura", pontua.

Eum ano em que o Ceará teve 47 feminicídios, Baixio não é responsável por nenhum deles.

➡️ Há 10 anos, a cidade cearense não registra nenhum caso do crime que já vitimou 281 mulheres entre 2018 e 2025 no estado.

De acordo com Ivana, um dos fatores que contribuem para que mulheres não sejam assassinadas é o acompanhamento preventivo que a secretaria faz com as famílias de Baixio, especialmente as mais vulneráveis.

Nas visitas, temas como violência doméstica, uso de drogas, gravidez na adolescência, entre outros, são trabalhados. A pasta também faz um trabalho em conjunto com a polícia, a fim de identificar mulheres vítimas de agressão física ou de qualquer outro tipo de violência:

"A gente entra na casa das famílias fazendo esse acompanhamento não só com a vítima, mas com o violador. Temos que trabalhar não só com as mulheres (...) Em 2025 começamos a investir na parentalidade. A gente quis trazer o público masculino para trabalhar a afetividade e não jogar a responsabilidade só para a mulher. Hoje ainda temos essa ideia de que educar e criar é papel da mulher. Mas o homem também tem esse papel fundamental dentro da família (...) Ano passado também fizemos um trabalho muito bacana com as crianças, porque às vezes elas crescem reproduzindo comportamentos que não são delas, mas que viram no pai", exemplifica Ivana.
 

Conforme a secretária, a violência patrimonial é a mais identificada entre mulheres acompanhadas na cidade. Em 2025, foram seis casos acompanhados. Ela é definida pelo Instituto Maria da Penha (IMP) como "qualquer conduta que configure retenção, subtração, destruição parcial ou total de seus objetos, instrumentos de trabalho, documentos pessoais, bens, valores e direitos ou recursos econômicos, incluindo os destinados a satisfazer suas necessidades".

"A gente faz esse trabalho voltado [para conscientização sobre violência doméstica] durante todo o ano, mas intensifica no mês de agosto, quando tem a campanha Agosto Lilás. Estamos sempre mostrando às famílias aqui no município que a violência não é só bater, não é só o ato físico; é também a patrimonial, a psicológica", pontua Ivana.

O trabalho com crianças e adolescentes é outra frente da gestão da cidade. Segundo Ivana, o ideal é manter esses públicos conectados com os esportes e as artes. O futebol, o vôlei, a pintura e a corrida são atividades que fazem parte do dia a dia dos baixienses, afirma a titular da pasta de Assistência Social.

"A gente tenta ocupar eles o máximo possível para que eles não fiquem vulneráveis a entrar no mundo das drogas, a praticar algum tipo de violência. Por mais que seja um município pequeno e que a gente se orgulhe [do fato de] ele não estar dentro desses dados [de mortes violentas], aqui existe sim violência, existem as drogas, infelizmente".

Com quase 6 mil habitantes, Baixio tem um clima tropical quente semiárido, caracterizado por temperaturas mais altas durante boa parte do ano ano e chuvas irregulares. — Foto: Divulgação/Prefeitura de Baixio

Com quase 6 mil habitantes, Baixio tem um clima tropical quente semiárido, caracterizado por temperaturas mais altas durante boa parte do ano ano e chuvas irregulares. — Foto: Divulgação/Prefeitura de Baixio

Para isso, a prefeitura conta com o Serviço de Convivência e Fortalecimento de Vínculos (SCFV), um projeto do Centro de Referência de Assistência Social (Cras) do município. Através dessa política, a gestão oferta atividades esportivas, rodas de conversa, momentos de lazer e ações educativas para o público jovem de Baixio, "prevenindo situações de vulnerabilidade e risco social".

A cidade conta, atualmente, com cinco escolas municipais, uma estadual e uma particular. Segundo o IBGE, em 2022 a taxa de escolarização de 6 a 14 anos de idade no município era de 98,68%. Conheça detalhes:

Indicadores educacionais de Baixio de 2022 a 2024

Indicador Valor
Taxa de escolarização de 6 a 14 anos de idade [2022] 98,68 %
IDEB – Anos iniciais do ensino fundamental (Rede pública) [2023] 6,1
IDEB – Anos finais do ensino fundamental (Rede pública) [2023] 4,5
Matrículas no ensino fundamental [2024] 654 matrículas
Matrículas no ensino médio [2024] 222 matrículas
Docentes no ensino fundamental [2024] 61 docentes
Docentes no ensino médio [2024] 20 docentes
Número de estabelecimentos de ensino fundamental [2024] 5 escolas
Número de estabelecimentos de ensino médio [2024] 1 escola

'Não tem o risco de ser abordado por um assaltante': como é morar na cidade

 

João Pedro Ramalho, de 20 anos, nasceu em uma maternidade na Paraíba, mas mora em Baixio desde o primeiro dia de vida. Com esforço, ele consegue lembrar da última vez em que um crime mais grave assustou a cidade: Em 2017, um grupo criminoso atacou um caixa eletrônico do Banco do Brasil, mas não levou dinheiro algum.

O único ponto negativo da cidade para João é a falta de oportunidades de emprego na sua área. Por isso, o jovem planeja se mudar após a formatura, um caminho seguido também por colegas seus:

"Eu acho que a grande maioria, depois que se forma, infelizmente busca outro lugar para viver. Aqui, por ser uma cidade de porte pequeno, para uma pessoa que tem nível superior, não é tão legal".

Ana Meyrice, no centro da foto, com sua família. A agente administrativa tem 44 anos - todos vividos na cidade de Baixio. — Foto: Arquivo pessoal

Ana Meyrice, no centro da foto, com sua família. A agente administrativa tem 44 anos - todos vividos na cidade de Baixio. — Foto: Arquivo pessoal

Diferentemente de João, a agente administrativa Ana Meyrice, de 44 anos, nunca pensou em mudar de Baixio. Ela celebra os baixos índices de violência no município, apesar de reconhecer que vez ou outra surge um caso que tira a paz da cidade.

"Há muitos anos, lembro que teve um caso de tentativa de feminicídio. Um esposo tentou contra a vida da esposa, mas ela não morreu. Isso chocou bastante a cidade. Foi na zona rural", relembra. Mesmo assim, ela se sente segura na cidade.

"Eu que sou mulher, já houve necessidade de ir no hospital à noite, sozinha. E você abre seu portão, tira a sua moto, vai no hospital, recebe um atendimento, volta pra casa. Então, eu me sinto bem em saber que Baixio é uma cidade que trabalha essa prevenção e traz esclarecimentos [sobre o assunto]".
 

Ana tem três filhos: uma jovem de 23 anos, um adolescente de 13 e o menor, de quatro anos. Segundo a mãe, todos cresceram brincando na rua e nas pracinhas da cidade.

A moradora define Baixio como uma 'grande família'. A ideia de que todo mundo se conhece aumenta a sensação de segurança, assim como a rede de assistência social citada e o fortalecimento do laço comunitário. Esse tripé faz da cidade uma solitária - mas intrigante - 'ilha de paz' em meio a um cenário de incertezas:

"Às vezes, quando você está em uma roda de conversa, termina descobrindo que fulano é parente do outro. Baixio é tranquilo mesmo. A gente até comenta o quanto ainda é bom viver aqui. Falo 'ainda' porque o futuro a Deus pertence, não é? A gente não sabe como vai ser daqui uns anos. Mas hoje morar aqui é tranquilo. Você anda tranquilo, não tem o risco de ser abordado por um ltante", comenta.
 
Infográfico - Conheça Baixio, cidade do Ceará sem registro de assassinatos há mais de dez anos. — Foto: Arte/g1

Infográfico - Conheça Baixio, cidade do Ceará sem registro de assassinatos há mais de dez anos. — Foto: Arte/g1

'Paraíso' ameaçado

 
Relembre: Operação da polícia cumpre mandados de prisão contra facção criminosa em Baixio e Ipaumirim.
Relembre: Operação da polícia cumpre mandados de prisão contra facção criminosa em Baixio e Ipaumirim.

Longe de ser um paraíso sem crimes, Baixio também vive seus problemas. Em 2025, o município registrou três tentativas de homicídio e uma morte no trânsito. Lá também houve, ainda no ano passado, buscas da Polícia Federal durante operação contra fraudes em licitações e desvio de emendas.

 Na época, a PF cumpriu mandados de busca e apreensão no gabinete do deputado federal Júnior Mano (PSB-CE), na Câmara dos Deputados. O parlamentar era investigado por suposto envolvimento em esquema de fraudes em licitações e desvio de recursos públicos por meio de emendas parlamentares no Ceará.

Ao todo, a PF cumpriu 15 mandados autorizados pelo ministro Gilmar Mendes, do STF. As ações ocorreram - além de Baixio - nas cidades de FortalezaNova RussasEusébio e Canindé.

A presença de facções criminosas na cidade também preocupa a população. Em junho de 2024, uma operação da Polícia Civil cumpriu 46 mandados judiciais, sendo 22 prisões preventivas e 24 buscas e apreensões no município pacato e em Ipaumirim, cidade vizinha.

operação investigava uma facção criminosa de origem paraibana que atua no tráfico de drogas, homicídios, delitos patrimoniais, dentre outros, no interior do Ceará e Paraíba. Conforme a polícia disse à época, a investigação descobriu que a o grupo criminoso tentava se instalar no estado do Ceará.

"Nosso trabalho de investigação descobriu que existiam pessoas da facção dentro de presídios em contato com outras pessoas planejando expandir a facção primeiramente para a cidade de Ipaumirim no Ceará. Foram apreendidos armas e drogas", explicou o diretor do Departamento de Polícia Judiciária do Interior Sul, Pedro Viana.
 

A expansão de grupos criminosos paraibanos para outros estados brasileiros não é novidade. O tema é trabalho central do pesquisador Eduardo Jorge Porto, que em 2025 defendeu a monografia 'Evolução das organizações criminosas na Paraíba'.

Segundo ele, um dos grupos que se originou na PB e está presente em outros três estados do Nordeste - Ceará, Pernambuco e Rio Grande do Norte - é a 'Nova Okaida':

A Okaida se compara a outras facções criminosas do Nordeste em termos de estrutura organizacional, alianças e estratégias de expansão. No entanto, cada facção possui suas especificidades, influenciadas pelo contexto local, pela história da criminalidade na região e pelas dinâmicas de poder em cada estado. Algumas facções se destacam pelo controle do tráfico de drogas, outras pela violência extrema e outras pela sofisticação na lavagem de dinheiro, por exemplo
— Eduardo Jorge Porto Carneiro Sobrinho.

O sociólogo e professor da Universidade Federal do Ceará (UFC) César Barreira, que também coordena o Laboratório de Estudos da Violência (LEV), concorda com o estudo de Eduardo. Segundo César, pesquisas do LEV têm observado a chegada desse grupo criminoso no Ceará.

Ele ainda pontua que é preciso analisar com cuidado os dados sobre a ausência de mortes violentas na cidade de Baixio. Isso porque, de acordo com pesquisador, "os dados não dizem tudo". "É muito mais interessante a gente ver porque aquilo ocorreu e o que impulsionou [essa ausência de dados]. Todos nós torcemos para que as coisas diminuam, para que a gente tenha uma sensação de segurança melhor", diz César.

O especialista explica que a chegada de facções no Ceará tem ocorrido, principalmente, por pequenas cidades, e não mais por grandes centros. E uma aparente sensação de "tranquilidade" nessas regiões pode esconder um problema maior, conforme César: quando um território tem a atuação de apenas uma facção, é provável que os conflitos e mortes sejam menores. "Na hora que chega outra facção é que, provavelmente, começa a haver disputa e homicídios", revela o pesquisador. Ele complementa:

"Isso é um procedimento normal das facções, que não é de hoje. Eles não chegam aqui em Fortaleza, eles chegam em outras cidades. Isso é no Brasil todo. Estou lembrando do Pará, que é a mesma história. [As facções] não entram por Belém, entram por outras cidades. E é assim em outros estados também", exemplifica.
 

A prefeitura de Baixio nega que alguma facção tenha se consolidado na cidade, embora reconheça a presença de poucos 'suspeitos que podem ser faccionados'.

Cidade pacata e com forte tradição religiosa ⛪

 

 Município autônomo desde outubro de 1956, Baixio foi construído na região onde antes habitavam indígenas da etnia Kariri. A história da cidade está completamente entrelaçada à chegada da estrada de ferro na região, em 1922.

Na época, Baixio ainda não tinha esse nome e era apenas uma fazenda localizada na cidade de Umari - hoje município vizinho desmembrado da cidade de Lavras da Mangabeira. Com a construção do ramal da estrada de ferro da Rede de Viação Cearense (RVC), que ligou o Ceará à Paraíba, o território tornou-se o mais populoso da região inteira.

Com forte tradição religiosa, um dos meses mais visitados da cidade é setembro, quando acontece a festa do padroeiro da cidade, São Francisco. O Carnaval e as festas juninas também rendem atenção, além da vaquejada que atrai público jovem de cidades vizinhas. Por fazer divisa com a Paraíba, moradores de Baixio acabam utilizando alguns serviços do estado vizinho, como faculdades e hospitais.

Religiões mais praticadas em Baixio

Religião Pessoas
Católica apostólica romana 4.338
Evangélicas 614
Outras religiosidades 98
Sem religião 10
Cidade é ponto fora da curva do Ceará. O estado registrou mais de 3 mil mortes violentas em 2025, liderando ranking por 100 mil habitantes. — Foto: Divulgação/Prefeitura de Baixio

Cidade é ponto fora da curva do Ceará. O estado registrou mais de 3 mil mortes violentas em 2025, liderando ranking por 100 mil habitantes. — Foto: Divulgação/Prefeitura de Baixio

De acordo com o IBGE, a religião mais praticada da cidade é a católica apostólica romana, com 4.338 pessoas adeptos. — Foto: Divulgação/Prefeitura de Baixio

De acordo com o IBGE, a religião mais praticada da cidade é a católica apostólica romana, com 4.338 pessoas adeptos. — Foto: Divulgação/Prefeitura de Baixio

Um dos principais pontos turísticos da cidade é a imagem de São Francisco esculpida perto de cachoeira. — Foto: Imagens cedidas por Cicero Coutinho, Luiz Felipe e João Pedro Ramalho.

Um dos principais pontos turísticos da cidade é a imagem de São Francisco esculpida perto de cachoeira. — Foto: Imagens cedidas por Cicero Coutinho, Luiz Felipe e João Pedro Ramalho.

Conforme a prefeitura, o interesse por esportes tem aumentado nos últimos anos na cidade. — Foto: Divulgação/Prefeitura de Baixio

Conforme a prefeitura, o interesse por esportes tem aumentado nos últimos anos na cidade. — Foto: Divulgação/Prefeitura de Baixio

Edição 2025 da 'Corrida da Fé'. — Foto: Arquivo pessoal

Edição 2025 da 'Corrida da Fé'. — Foto: Arquivo pessoal

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