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Quarta-Feira, 04 de março de 2026

Brasil

Roraima: Como é a jornada dos venezuelanos acolhidos na fronteira com o Brasil

Crise humanitária e, agora, o ataque dos EUA a Caracas geram incerteza sobre o fluxo migratório. Em oito anos, por meio de uma força-tarefa humanitária, mais de150 mil venezuelanos chegaram a Roraima e seguiram para outros Estados.

Roraima: Como é a jornada dos venezuelanos acolhidos na fronteira com o Brasil

Longa fila de migrantes no atendimento da Operação Acolhida em Boa Vista em 5 de janeiro (Imagem: Caíque Rodrigues/g1 RR)

Ao cruzar a fronteira entre a Venezuela e o Brasil, em Pacaraima, no norte de Roraima, migrantes venezuelanos encontram o primeiro ponto de atendimento a menos de um quilômetro da linha geográfica que separa os dois países. É nesse local que começa, oficialmente, a jornada para a permanência legal no Brasil e, para muitos, o processo de interiorização — como é chamada a política que leva esses estrangeiros para outras cidades do país. (leia as histórias abaixo)

O processo é conduzido pela Operação Acolhida, a força-tarefa do Exército criada em 2018 pelo governo federal, com apoio de organizações internacionais, sendo responsável pelo ordenamento da fronteira, acolhimento e interiorização de migrantes venezuelanos no Brasil.

 Pacaraima, no extremo norte do Brasil, é o primeiro território a sentir os reflexos dessa crise política, econômica e humanitária venezuelana.

captura do ditador Nicolás Maduro, presidente da Venezuela, pelos norte-americanos no último dia 3 projeta um momento de incerteza na fronteira.

Em um vídeo divulgado nas redes sociais, o Operação Acolhida disse estar "preparada para cenários de aumento do fluxo migratório" e mantém monitoramento constante na fronteira. Até a publicação desta reportagem, a situação era considerada estável.

"As equipes seguem atuando de forma permanente, acompanhando o movimento e garantindo o ordenamento da fronteira e a segurança da população roraimense", informou
 

 Mais de150 mil venezuelanos foram interiorizados por meio da Operação Acolhida. Elas foram levadas a 1.100 municípios brasileiros.

 De acordo com o comandante da força-tarefa em Roraima, general de divisão José Luís Araújo dos Santos, a operação mantém seis abrigos divididos em Pacaraima e Boa Vista. Juntos, abrigam atualmente cerca 5,8 mil pessoas recém-egressas da Venezuela.

Apesar da importância de mecanismos como a Operação Acolhida para o atendimento humanitário aos migrantes, questões como adaptação culturalinserção no mercado de trabalho, reunificação familiar e enfrentamento ao preconceito são parte do cotidiano de quem chega ao Brasil.

Por ser uma situação de "migração forçada", o pesquisador e diretor do Centro de Ciências Humanas da Universidade Federal de Roraima (UFRR), João Carlos Jarochinski Silva, explica que os desafios enfrentados pelos estrangeiros não acabam ao cruzar a fronteira. (leia mais abaixo)

"A interiorização cria oportunidades concretas, sobretudo ao ampliar o acesso ao trabalho e reduzir a pressão na fronteira, mas não elimina as perdas acumuladas ao longo da trajetória migratória. Não é só ter documento e ‘zerar’ a vida", disse.
 
Fila para atendimento na fronteira do Brasil com a Venezuela, no dia 7 de janeiro de 2026 — Foto: Caíque Rodrigues/g1 RR

Fila para atendimento na fronteira do Brasil com a Venezuela, no dia 7 de janeiro de 2026 — Foto: Caíque Rodrigues/g1 RR

Entrada de migrantes

 

Dados do Observatório das Migrações Internacionais (OBMigra) contabilizam a entrada de quase 1 milhão de venezuelanos no Brasil entre 2018 e 2025 - o levantamento considera todo o fluxo migratório, o que inclui também o grupo atendido por meio da Operação Acolhida. Há outras rotas, além de Pacaraima, para que venezuelanos entrem e se estabeleçam no Brasil por conta própria.

Até novembro do ano passado, 11,2 mil migrantes foram levados para outros estados por meio do programa de interiorização da Acolhida.

Esse é o sonho do pedreiro venezuelano Daniel Torres, de 39 anos. Ele chegou em Pacaraima na última quarta-feira (7) após quatro dias de viagem saindo de ônibus de Apure, região na fronteira da Venezuela com a Colômbia.

Ele afirma que pretende seguir para Macapá, no Amapá, onde o irmão dele vive. Para isso, tentará atendido pelo programa de interiorização da Operação Acolhida.

"Quero trabalhar na construção civil com o meu irmão que mora em Macapá. Quero recomeçar a vida, na Venezuela não dava mais para ficar, muita coisa ruim. Em nome de Deus, quero começar uma vida nova”.
 
Daniel Torres, de 39 anos, saiu de Apure, região na fronteira da Venezuela com a Colômbia, e chegou a Pacaraima após quatro dias de viagem. — Foto: Caíque Rodrigues/g1 RR

Daniel Torres, de 39 anos, saiu de Apure, região na fronteira da Venezuela com a Colômbia, e chegou a Pacaraima após quatro dias de viagem. — Foto: Caíque Rodrigues/g1 RR

Programa de interiorização

 

Quando chegam em Pacaraima, os migrantes são cadastrados pelo governo brasileiro, que solicita documentos para registro e permanência no país , além de submeter os cidadãos a uma triagem básica de saúde - momento em que são vacinados. Em alguns casos, também são encaminhados para atendimento médico.

Enquanto aguardam a conclusão desses procedimentos, permanecem em abrigos temporários no município. Esses alojamentos são administrados pelos militares do Exército.

Durante essa etapa, os venezuelanos recém-chegados ao Brasil informam se têm oferta de emprego ou familiares em outras regiões, o que pode facilitar a inclusão no programa de interiorização.

Após a fase inicial, os migrantes seguem em ônibus para Boa Vista, onde o atendimento é ampliado. Ao menos um coletivo parte por dia de Pacaraima, conforme o g1 apurou.

Venezuelanos chegando em Pacaraima, dia 7 de janeiro de 2026 — Foto: Caíque Rodrigues/g1 RR

Venezuelanos chegando em Pacaraima, dia 7 de janeiro de 2026 — Foto: Caíque Rodrigues/g1 RR

Na capital de Roraima, aqueles que têm trabalho garantido ou rede de apoio entram na fila para serem transferidos a outros estados. Os que não contam com suporte são acolhidos em abrigos de trânsito, com estrutura maior do que a disponível na fronteira.

Parte dos migrantes também participa de cursos de qualificação profissional, oferecidos em parceria com instituições como o Senai, além de processos de intermediação com empresas que buscam contratar profissionais. Depois desta etapa ocorre a interiorização para cidades onde há vagas de emprego ou familiares.

Para quem passou por esse processo, o retorno à fronteira pode marcar um novo capítulo da história migratória. Marjorie Cabrera, de 36 anos, natural de Maturín, vive há cinco anos no Brasil e voltou a Pacaraima para buscar as filhas e o irmão, que agora seguirão com ela para Santa Catarina, o estado que mais recebe venezuelanos por meio da interiorização(veja no infográfico abaixo).

Venezuelanos foram levados a 1.100 municípios brasileiros; acima estão os principais. — Foto: Arte/g1

Venezuelanos foram levados a 1.100 municípios brasileiros; acima estão os principais. — Foto: Arte/g1

Ela mora no município de São José (SC), onde trabalha em um comércio, e conta que a viagem à Venezuela, em dezembro, foi marcada pela emoção do reencontro.

“A gente já tinha cinco anos que não se via. Agora, minhas três filhas estão todas reunidas. É muito sentimento encontrado”, afirmou.
 
Marjorie Cabrera, de 36 anos, natural de Maturín, vive há cinco anos no Brasil trouxe a família para viver com ela em Santa Catarina — Foto: Caíque Rodrigues/g1 RR

Marjorie Cabrera, de 36 anos, natural de Maturín, vive há cinco anos no Brasil trouxe a família para viver com ela em Santa Catarina — Foto: Caíque Rodrigues/g1 RR

Segundo Marjorie, a interiorização foi decisiva para a construção de uma nova vida no Brasil.

"É muito legal morar em Santa Catarina. A gente começa uma vida nova, uma vida boa. Aqui já é a minha vida, não tem como deixar o que eu tenho para voltar para a Venezuela”, disse.
 

A dimensão do trabalho humanitário desenvolvido na fronteira foi destacada pelo general José Luís. Ele afirmou que a operação segue estruturada para atender novos cenários migratórios.

"Cerca de 80 mil pessoas foram recepcionadas, com mais de 600 mil atendimentos [em 2025], garantindo documentação para viver no Brasil com cidadania”, afirmou o general.

Segundo ele, a atuação também avançou nas áreas de saúde e acolhimento com mais de 7 mil pessoas vacinadas "protegendo migrantes, refugiados e a população brasileira".

Não é um recomeço completo

 

Na avaliação do professor João Carlos Jarochinski, o processo migratório não pode ser visto como um simples “reinício administrativo”.

"Essas pessoas chegam, na maioria das vezes, sem recursos, sem conseguir transformar o que tinham na Venezuela em investimento aqui. Muitas vêm de uma migração forçada, marcada por perdas materiais, ruptura familiar e dificuldade de comprovar suas qualificações profissionais”, afirma.
 

De acordo com o pesquisador, o ponto favorável ao Brasil é que essa política de interiorização também atende a demandas estruturais do próprio país, especialmente em estados com escassez de mão de obra e envelhecimento da população, como Santa Catarina, principal destino dos venezuelanos no programa.

Ainda assim, ele aponta problemas que persistem no processo de integração.

“Há um descompasso entre a qualificação que muitos migrantes possuem e as vagas que acabam sendo ofertadas. Falta avançar no reconhecimento de títulos, na validação de competências e em políticas públicas mais articuladas entre União, estados e municípios.A interiorização funciona, mas precisa ser acompanhada de estratégias reais de integração”, avalia.
   

*G1