Segunda-Feira, 09 de março de 2026
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Apesar de avanço dos debates trabalhistas no Brasil e no mundo, estruturas das nações podem tornar transição mais desafiadora
Proposta em discussão sugere redução da jornada oficial dos trabalhadores para 36 horas semanais (Imagem: Tânia Rêgo/Agência Brasil - Arquivo)
O debate sobre o fim da escala 6x1 vem ganhando força no Brasil nos últimos anos, impulsionado pela discussão de uma PEC (Proposta de Emenda à Constituição) que propõe reduzir a jornada semanal para 36 horas. A medida abriria espaço para modelos como a escala 4x3 ou 5x2, já adotados ou testados em outros países.
Apesar do avanço da discussão, especialistas ouvidos pelo R7 apontam que eliminar a escala tradicional de seis dias de trabalho por um de descanso envolve desafios econômicos, culturais e estruturais significativos para o país.
Entidades empresariais, como a CNI (Confederação Nacional da Indústria), posicionaram-se contra a mudança e publicaram manifesto com alerta para eventuais impactos na produtividade e nos gastos das firmas contratantes.
Para o professor de economia do Ibmec Brasília, Renan Silva, a redução da jornada pode gerar efeitos macroeconômicos relevantes, caso ela seja adotada sem mudanças estruturais na produtividade.
Ele também acrescenta que a redução da carga semanal de 44 para 40 horas poderia elevar os custos operacionais das empresas em até R$ 267,2 bilhões por ano. “E esse choque de custos pode acabar repassado aos preços finais e gerar pressão inflacionária.”
Produtividade é uma entrave
De acordo com dados do Ranking Global, o Brasil ocupa a 94ª posição em produtividade entre 184 economias analisadas.
Em média, um trabalhador brasileiro precisa de uma hora para produzir o equivalente ao que um trabalhador norte-americano produz em cerca de 15 minutos.
“O fato é que economias de renda média, como a brasileira, tendem a manter jornadas longas porque a produção por hora não é suficiente para sustentar os níveis de renda e consumo com menos tempo de trabalho. A produtividade estagnada (crescimento menor do que 1% ao ano nas últimas décadas) reflete a falta de automação e qualificação da mão de obra”, comenta Silva.
Para o especialista, economias de renda média tendem a manter jornadas mais longas justamente porque a produção por hora ainda não é suficiente para sustentar os níveis de renda e consumo com menos tempo de trabalho.
“A produtividade brasileira cresce menos de 1% ao ano nas últimas décadas, reflexo da baixa automação e da qualificação ainda limitada da mão de obra”, afirma.
Nesse cenário, reduzir a jornada sem ganhos prévios de produtividade poderia elevar o custo da hora trabalhada em cerca de 22%, pressionando empresas e consumidores.
Entre os segmentos mais vulneráveis à mudança estão varejo, gastronomia e hotelaria, que operam sete dias por semana e têm picos de demanda justamente nos fins de semana.
Benefícios e riscos jurídicos
Para a advogada trabalhista Fernanda Maria Rossignolli, sócia do HRSA Sociedade de Advogados, a discussão envolve um equilíbrio entre bem-estar social e viabilidade econômica.
“Do ponto de vista dos trabalhadores, jornadas menores podem trazer ganhos importantes, como mais tempo para lazer, família e estudo, além da redução de problemas de saúde mental associados ao excesso de trabalho.”
Ela também afirma que empresas também podem se beneficiar com funcionários mais descansados, maior produtividade e menor rotatividade.
Por outro lado, Rossignolli destaca que a mudança pode gerar desafios operacionais e jurídicos.
“Existiria um aumento de custos para empresas que precisariam contratar mais funcionários para manter as atividades e o risco de intensificação do trabalho nas horas em que o empregado estiver presente”, analisa.
Comparação internacional
Apesar de países como Dinamarca e Noruega já terem extinguido a escala, Renan Silva ressalta que comparar o Brasil com outras economias exige um certo tipo de limite.
“A comparação com países desenvolvidos é considerada limitada, mas têm valor informativo e reflexivo. Os países do G7 possuem jornadas menores, mas produtividade por hora muito superior à brasileira. No Brasil, a jornada é superior à dos EUA e França, mas inferior à de México e Índia”, comenta.
Para ele, é certo que existe um movimento global de redução, e o Brasil está acima de quase todos os países da OCDE (Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico) em horas trabalhadas.
“Países vizinhos como Colômbia e Chile já iniciaram transições graduais para jornadas de 40 horas, servindo como referências mais próximas em termos de desenvolvimento”, finaliza.
*R7/Brasília