Sexta-Feira, 06 de março de 2026
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Especialistas avaliam que cortes da Selic devem começar em março, mas cenário externo pode reduzir o ritmo ao longo do ciclo
Ritmo de corte da Selic pode ser reduzido pelo cenário externo (Imagem: Joédson Alves/Agência Brasil )
A escalada do conflito no Oriente Médio acendeu um alerta no mercado financeiro global, mas ainda não deve impedir o início do ciclo de corte de juros no Brasil. Mesmo assim, a poucos dias da reunião do Copom (Comitê de Política Monetária), marcada para 17 e 18 de março, economistas avaliam que o cenário externo pode influenciar a trajetória da taxa básica de juros, especialmente se houver pressão persistente sobre o petróleo e o dólar.
Para Leonardo Costa, economista do ASA, o conflito ainda não altera de forma relevante o cenário base da política monetária brasileira. “O choque geopolítico aumenta a incerteza global e pode elevar prêmios de risco, mas ainda é cedo para assumir efeitos persistentes sobre inflação, câmbio ou condições financeiras domésticas”, afirma.
Segundo ele, a tendência é que o Banco Central adote cautela e aguarde maior clareza sobre a duração e a intensidade da crise. “A avaliação corrente é que o Copom deve manter o plano de iniciar o ciclo de flexibilização, com corte de 0,50 ponto percentual na reunião de março”, diz.
A alta recente do petróleo é um dos principais pontos de atenção, mas, até agora, não é vista como suficiente para alterar o início dos cortes.
“O Banco Central tende a reagir mais à persistência do choque e aos seus efeitos sobre expectativas de inflação do que a movimentos pontuais de commodities”, explica Costa.
Ele ressalta, no entanto, que um aumento mais prolongado da commodity pode mudar esse quadro. “O que poderia alterar a trajetória seria um aumento mais prolongado e expressivo, capaz de gerar repasses relevantes para preços domésticos e expectativas.”
Na mesma linha, o economista Augusto Mergulhão avalia que o corte de juros deve ocorrer, mas com possíveis ajustes no ritmo ao longo do tempo. “Como o Copom já sinalizou o início de corte, tem que ocorrer uma desancoragem das expectativas muito elevada para ele não cortar”, afirma.
Para ele, o cenário de guerra pode influenciar mais a intensidade das reduções do que o início do ciclo. “O que pode acontecer é, se persistir muito essa guerra, a magnitude da redução ser menor. Em vez de reduzir 0,50 ponto percentual, reduz 0,25 ponto percentual. De maneira mais cadenciada e mais lenta.”

Mesmo com sinais recentes de desaceleração da inflação, o cenário externo segue no radar do Banco Central. Costa destaca que fatores como câmbio, commodities e condições financeiras globais fazem parte da análise da autoridade monetária.
“Caso a escalada do conflito amplifique a aversão ao risco, pressione o dólar ou provoque alta persistente das commodities energéticas, isso poderia reduzir o espaço para cortes mais profundos ao longo do ciclo”, afirma.
Entre os canais de transmissão, o câmbio costuma ter papel central no curto prazo, enquanto o petróleo impacta diretamente combustíveis e custos produtivos.
Para o economista César Bergo, a guerra tende a ter efeitos mais amplos, especialmente se houver prolongamento do conflito. “Uma guerra você sabe quando começa e não sabe quando termina. E me parece que essa está longe de terminar”, afirma.
Ele destaca que a alta do petróleo já gera distorções no mercado de energia e pressiona a inflação global. “Não tem a menor dúvida de que afeta a política de juros, sim.”
Apesar disso, Bergo também acredita que o corte deve ocorrer na reunião de março, ainda que haja incerteza sobre a magnitude. “A pergunta é se vai ser 0,25 ponto percentual ou 0,5 ponto percentual. Eu acredito que vai ser 0,5”, afirma.
O principal risco no horizonte, segundo os economistas, é uma alta persistente do petróleo que acabe se espalhando pela economia. Para César Bergo, esse movimento pode pressionar diretamente a inflação, especialmente se os aumentos forem duradouros.
“Uma alta persistente no petróleo, como a gente viu, de 20% em uma semana, não tem mercado que aguente. Se isso se mantiver, vai realmente pressionar e pode ocasionar um repique da inflação”, afirma.
Na prática, o impacto começa nos combustíveis e avança para custos como frete, logística e produção, encarecendo bens e serviços ao consumidor.
Na avaliação de Mergulhão, o impacto vai além dos combustíveis. “O petróleo é a base da economia mundial, porque influencia o custo do transporte, da produção e da entrega de praticamente tudo o que a gente consome”, afirma. “No final, o impacto é sentido em toda a cadeia produtiva.”
Além do petróleo, a combinação de incerteza global, volatilidade nos mercados e pressão sobre o câmbio também entra na conta. Segundo Mergulhão, esse ambiente pode desancorar expectativas de inflação, o que influencia diretamente a atuação do Banco Central.
Já Bergo ressalta que o cenário internacional — incluindo decisões de juros nos Estados Unidos e na Europa — também pesa sobre o Brasil. “A geopolítica internacional faz parte do radar do Banco Central”, afirma.
Ele reforça que, diante desse contexto, se o cenário externo piorar, o mais provável não é a interrupção dos cortes, mas um ritmo mais lento — prolongando o período de juros elevados e seus efeitos sobre crédito, consumo e crescimento econômico.
*R7/Brasília