Sábado, 11 de abril de 2026
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Medidas como subsídio ao diesel podem conter a inflação no curto prazo, mas levantam dúvidas sobre impacto nas contas públicas
Em meio à escalada dos preços do petróleo provocada pela guerra no Oriente Médio, o governo federal lançou um pacote para conter o avanço dos combustíveis, com medidas como a subvenção de até R$ 1,20 por litro para a importação de diesel. A iniciativa busca aliviar a inflação e o custo de vida no curto prazo, mas reacende o debate sobre os efeitos colaterais de intervenções desse tipo na economia brasileira.
Na avaliação do economista Hugo Garbe, esse tipo de ação costuma ter impacto imediato relevante sobre os preços. “No curto prazo, elas podem gerar alívio ao consumidor e ajudar a conter o avanço do IPCA, já que o combustível impacta diretamente transporte, alimentos e serviços”, afirma. Segundo ele, o efeito ganha ainda mais peso em momentos de volatilidade internacional e pressão cambial.
O economista destaca que o efeito também tem importância política, ao reduzir a insatisfação social em períodos de alta nos preços. No entanto, ele alerta que o custo estrutural dessas medidas pode ser elevado.
“Ao descolar os preços internos do mercado internacional, cria-se uma distorção que pode comprometer a saúde financeira de empresas como a Petrobras, reduzir o apetite de investidores e aumentar a percepção de risco regulatório”, diz.
Entre os possíveis efeitos negativos estão a redução de investimentos no setor, pressão fiscal indireta e perda de eficiência econômica. Ele avalia que, embora intervenções possam trazer benefícios imediatos ao consumidor, a experiência histórica indica que os custos tendem a aparecer ao longo do tempo.
“Ainda que possa haver algum benefício imediato, os efeitos econômicos negativos costumam se manifestar no médio e longo prazo”, afirma.
A reação do mercado, segundo Garbe, costuma ser rápida. “Investidores tendem a reprecificar ativos brasileiros diante do aumento da incerteza, o que pode levar à queda das ações da Petrobras, desvalorização do real e abertura da curva de juros.”
Para o economista Rafael Richter, embora o subsídio alivie o bolso da população e melhore o ambiente no setor de transportes, há custos relevantes no médio prazo.
“No geral, esses choques podem ser uma escada para a mudança energética e para mudanças estruturais no setor de transportes. Com uma subvenção dessa magnitude, a tendência é que reforcemos todos os vícios do sistema atual”, afirma.
Custo de R$ 31 bilhões
Richter também chama a atenção para o impacto fiscal das medidas, estimado em cerca de R$ 31 bilhões ao considerar ações voltadas ao diesel, gás de cozinha e querosene de aviação. “O cenário fiscal já é muito frágil e as medidas anunciadas para financiar essa política não parecem suficientes para custear o subsídio”, diz.
Segundo ele, há ainda o risco de desincentivo a investimentos no setor energético, caso as intervenções reduzam a rentabilidade das empresas. Além disso, a política pode acabar reforçando a dependência do país do transporte rodoviário e dos combustíveis fósseis, atrasando mudanças estruturais na matriz energética.
Do ponto de vista do mercado, Richter afirma que a reação tende a ser negativa, especialmente pela memória recente de intervenções no setor. “Os investidores não esqueceram os efeitos das intervenções na Petrobras entre 2011 e 2014. Isso faz com que medidas desse tipo sejam muito mal recebidas até hoje”, afirma.
Ele explica que a percepção de risco maior pode levar à queda no preço das ações, redução do apetite por investimentos e aumento do custo da dívida, refletido na curva de juros. No mercado físico, há ainda o risco de redução das importações, o que pode gerar escassez de combustíveis no país.
A possibilidade de uma nova intervenção direta na Petrobras também segue no radar. Para Richter, embora não seja possível descartar esse cenário, a tendência é que eventuais medidas sejam mais limitadas. Ainda assim, ele alerta para os efeitos. “Se o governo usar a Petrobras para fazer política de controle de preços, veremos uma queda da lucratividade da empresa e um mascaramento da inflação.”
*R7/Brasília