Domingo, 18 de janeiro de 2026
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Acordo com bloco europeu surge como alternativa para o setor, que perdeu competitividade no mercado americano
O tarifaço imposto pelos Estados Unidos a produtos brasileiros no ano passado levou a indústria do calçado a buscar novos mercados para manter as exportações. Nesse cenário, o acordo entre Mercosul e União Europeia aparece como uma alternativa para o setor, que enfrenta perda de competitividade no mercado americano.
Para representantes do setor, o acordo é motivo de celebração, pois estabelece uma estrutura estratégica em tempos de instabilidade na política internacional.
“Os calçados de couro, que respondem por 45% dos valores exportados pelo Brasil à União Europeia, devem alcançar a eliminação tarifária total em até sete anos. Além disso, o acordo comercial deve contribuir para uma maior diversificação da pauta exportadora brasileira, abrindo maior espaço nos demais segmentos, como calçados têxteis e sintéticos, cuja tarifa é de 17% nos países da União Europeia”, comenta o presidente-executivo da Abicalçados (Associação Brasileira das Indústrias de Calçados), Haroldo Ferreira.
As exportações de calçados do Brasil para o bloco europeu em 2025 cresceram em relação a 2024.
O país vendeu para a União Europeia ao menos 17,4 milhões de pares (+5,2% na comparação com 2024), com um lucro de US$ 105,2 milhões (+0,1%), segundo dados da própria indústria.
Um estudo feito pelo Ipea (Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada) constatou que, em 15 anos, o acordo pode elevar em no mínimo 62% as exportações de calçados do Brasil para a União Europeia. A produção deve crescer 3,2% nesse mesmo intervalo.
Ferreira também acredita que o acordo pode fortalecer as cadeias de suprimentos, elevar o valor agregado e produzir efeitos positivos sobre a indústria calçadista brasileira. Ele lembra, por exemplo, que em 2024 a União Europeia foi responsável por pouco mais de 40% das importações mundiais de calçados.
“O acordo entre os blocos é um sinal em direção à cooperação internacional, sendo benéfico ao setor calçadista brasileiro”, avalia.
“O acordo comercial tende a elevar a inserção e competitividade dos calçados brasileiros no mercado europeu, hoje marcado, além do comércio intra-UE, por forte presença asiática — que representa mais de 50% dos valores importados — e por acordos já vigentes, como o firmado com o Vietnã em 2020”, acrescenta.
Para o economista Felippe Serigati, pesquisador da FGV Agro, o acordo Mercosul-União Europeia deve ser visto como um movimento de médio e longo prazo.
Segundo ele, no setor calçadista, a abertura do mercado europeu pode ajudar a reduzir a dependência dos Estados Unidos e trazer maior estabilidade em um cenário global marcado por disputas comerciais.
“Ter uma alternativa ao mercado americano é fundamental para a indústria do calçado. Não é algo imediato, mas o acordo abre uma perspectiva concreta de diversificação das exportações”, diz.
*R7/Brasília