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Sexta-Feira, 27 de novembro de 2020

Entretenimento

Angélica: 'Sou muito privilegiada. Gosto do que faço, nasci para isso'

Angélica: 'Sou muito privilegiada. Gosto do que faço, nasci para isso'

(Imagem: Brunno Rangel/Divulgação)

Conhecida pelo público desde que era criança e participava de campanhas e concursos de beleza, Angélica acumula mais de 30 anos como apresentadora e está de volta à TV com o Simples Assim, na Globo, após um hiato de dois anos, desde o fim do Estrelas. Ao realizar a entrevista para a capa de Quem, por videochamada, a apresentadora, de 46 anos de idade, logo se posiciona em uma área iluminada do escritório de sua casa e fala sobre diversos assuntos -- ultrapassando o tempo inicialmente previsto para a conversa. Com riso solto, ela diverte-se ao saber que a repórter, quando criança, já a abordou -- e foi atendida -- durante um jantar romântico de Dia dos Namorados para pedir uma foto e também esteve na plateia de um dos seus shows de Páscoa na década de 90, mais precisamente em 1997.

"Eu usava um figurino de coelhinha nesse show! Você já me viu vestida de coelhinha? Isso não é pouca coisa. Temos uma história juntas (risos)", brinca Angélica, que teve trabalhos voltados ao público infantil por 15 anos, comandando atrações na extinta TV Manchete, SBT e Globo. Na época, não faltavam especulações de rixas entre ela, Xuxa e Eliana. Não à toa, encontros entre as três -- como um realizado em setembro -- geram comoção entre fãs.

"Não éramos inimigas, mas aquela mentira [da rivalidade] se tornava uma verdade. A gente não se falava e deixava esse movimento tomar conta", lembra.

A maturidade também faz com que a apresentadora tenha uma relação mais amigável com seu físico. "Isso não é o carro-chefe da minha vida como já foi, no sentido de ter a necessidade de estar magra, sarada…", afirma, admitindo que já fez algumas loucuras para ter o corpo "dentro dos padrões".

 

Angélica (Foto: Brunno Rangel/ Divulgação)

Angélica (Foto: Brunno Rangel/ Divulgação)

A pauta feminista é um tema que interessa Angélica. "A gente está vivendo um movimento feminista positivo muito legal. Falo de um movimento feminista do bem, sadio, sem raiva. Acho que a gente não pode deixar esse bonde passar", afirma a apresentadora, que comandou neste ano uma edição do Cartas para Eva, no GNT, com mensagens escritas para a filha caçula Eva, de 8 anos, do casamento com Luciano Huck, com quem também tem Joaquim, de 15 anos, e Benício, de 13 anos.

Angélica conta que ela e Huck são atentos à educação dos filhos. "Eles são uma geração mais conectada, com valores mais profundos e mais verdadeiros. Procuro ter conversa, ter diálogo. A minha relação com meus filhos é muito aberta", afirma a apresentadora, contando que ela e o marido, que completaram 16 anos de casamento em outubro, fazem questão de ter momentos a dois durante a quarentena.

"No meio da pandemia, criamos uma rotina para namorar, para conversar, para ficar junto", diz, afirmando viver o presente, sem se importar com projeções feitas por terceiros. "Não faço planos no sentido de “futura Hebe” ou “futura primeira-dama”. São expectativas que não são minhas, são quereres de outros. No caso da Hebe, acho um luxo (risos). No caso de primeira-dama, às vezes, acho divertido; às vezes, acho chato."

 

Angélica (Foto: Brunno Rangel/ Divulgação)

Angélica (Foto: Brunno Rangel/ Divulgação)

Quem: Ao longo da sua carreira, você já comandou auditórios, infantis, game shows e atuou em novelas e séries. Simples Assim vem com uma proposta diferente. Como tem sido o retorno?
Angélica: 
Fazia muito tempo que eu não tinha esse contato com o público em um programa. Fiquei muito tempo no Estrelas – foram quase 13 anos – e estava, de certa forma, no piloto automático. Você não sabe mais como está essa receptividade do público. É legal dar voz a pessoas que não são conhecidas. Estava com um friozinho na barriga para estrear porque tinha o questionamento: “é coisa da minha cabeça que as pessoas querem ver um programa como este?” Mas aí, quando estreou, vi que não era da minha cabeça. A receptividade foi muito boa, com pessoas das mais diferentes áreas. De empresários à produção. Das pessoas que trabalham em casa aos fã-clubes. Cada um enxergando uma nuance e entrando no clima do programa. Na edição em que o tema foi amor recebi mensagens no WhatsApp de amigos que não via há tempos. Recebi mensagens dizendo que o programa estimulou que dissessem um “te amo” para a mãe. Foi uma onda interessante. E o bacana é que há o streaming, ou seja, a pessoa que não assistiu no sábado, pela TV, consegue assistir ao longo da semana e vem comentar comigo pelas redes sociais.

A intenção é que o programa tenha uma vida maior do que o período que fica no ar na TV?
Sim, uma vida longa. Afinal, é um programa que espalha. Tem o podcast, as entrevistas para a internet. Estamos em todas as áreas. É muito bom ter um programa que não começa e termina no sábado. Ele perdura. Antes do programa estrear na Globo, já estávamos com esse movimento de olhar para o outro e canalizar as coisas simples. O Simples Assim veio trazendo essa good vibes. Não estamos ditando isso. As pessoas estão querendo esse movimento de olhar para o lado, buscar espiritualidade. Acho que o programa traz esse pertencimento, essa ideia de você se sentir representado.

 

Angélica (Foto: Brunno Rangel/ Divulgação)

Angélica (Foto: Brunno Rangel/ Divulgação)

Com mais de 30 anos de carreira, como lida com as eventuais críticas e comentários na internet? É do tipo que assiste ao programa com o celular na mão para ver o que estão falando nas redes?
Twitter eu nem vejo. Durante o programa, fico na vibe de assistir e observar as reações de quem assiste comigo. Depois vejo os comentários no Instagram, na minha página do Facebook, mensagens de WhatsApp. Claro que críticas são bem-vindas. Temos um programa em andamento e gosto de ouvir o que as pessoas estão gostando mais, o que não gostaram tanto. Acho isso bem legal e importante, mas não pauto o programa por isso. Ele tem um propósito diferente, então tem que tomar cuidado para não cair em uma enrascada. A opinião das pessoas é importante. Outro dia assisti com a minha mãe e é o maior barato ver as reações dela.

Sua mãe passa a quarentena com vocês?
Ela ficou três meses aqui e depois voltou para casa dela, que também é no Rio. A gente se encontra, mas nós tomamos os cuidados de testar todos antes de nos reunir.

E seus filhos? Também acompanham esse seu novo momento profissional?
Eles assistiram à estreia comigo. No segundo, quando eles apareceram, os meninos assistiram separados porque ficam com vergonha. Eles fizeram a homenagem para mim, mas assistir junto já é demais (risos).

Angélica (Foto: Brunno Rangel/ Divulgação)

Angélica (Foto: Brunno Rangel/ Divulgação)

Neste ano, você teve uma edição especial na TV do Cartas para Eva, exibido no GNT. Pretende repetir a dose?
Foi um momento pontual, estávamos na fase inicial da pandemia. Estava com meu diretor aqui em casa, porque ainda escrevíamos o Simples Assim. Aí, nos aproximamos do Dia das Mães e decidimos gravar o Cartas. Mobilizou as mães, as mulheres, viralizou e pensei em transformá-lo em um projeto para mulheres, para meninas. Não sei se irá [ter continuidade], mas estou escrevendo. É muito legal, simples de fazer e de ser executado. Ao mesmo tempo em que toca e atinge o público, é simples naquilo que se propõe. Acho que sentimento de mãe é sempre muito semelhante.

No sentido de uma mãe entender a outra?
A gente está vivendo um movimento feminista positivo muito legal. Falo de um movimento feminista do bem, sadio, sem raiva. Acho que a gente não pode deixar esse bonde passar. Temos que fazer nossa parte e vivê-lo. A  gente faz parte dessas conquistas.

 

Angélica (Foto: Brunno Rangel/ Divulgação)

Angélica (Foto: Brunno Rangel/ Divulgação)

Quando você passou a pensar mais nesta pauta feminista? Nos anos 90, muito se falava em “guerra das loiras”, da rivalidade entre você, Xuxa e Eliana. Por outro lado, quando se falava dos apresentadores homens – Gugu, Faustão, Silvio Santos – eles nunca eram colocados como inimigos pessoais. No máximo, estavam em “guerra de audiência”, questão profissional.
Verdade! Você deu um exemplo maravilhoso. A mulher ficou com o estigma de não gostar uma da outra. Isso foi criado em decorrência do machismo estrutural que a gente vive. Quando falamos em machismo, não falamos só de homens, não. Tem muita mulher machista por aí. Isso está caído, né? Bem caído. Não é porque sou mulher que preciso concordar com tudo o que você pensa, não preciso ser sua amiga íntima, mas eu não posso e não devo te jogar para baixo. As mulheres têm que se unir. Tem quem fale que está demais essa onda feminista, mas, às vezes, é preciso ir a um extremo para depois voltar a um caminho do meio. Não cabe mais uma mulher falar da outra, não cabe mais aceitar como a gente aceitava naquela época.

Vocês não tinham a rivalidade que muita gente imaginava?
Não éramos inimigas, mas aquela mentira [da rivalidade] se tornava uma verdade. A gente não se falava e deixava esse movimento tomar conta. Hoje, isso não cabe mais. Se alguém chega e me fala: “Angélica, pessoa X falou de você, disse que não gosta de você”, eu vou ligar, vou perguntar. A internet propicia muito isso, essa abertura, essa chance de você ter uma maior proximidade. Hoje, estamos em um momento de dar as mãos.

 

Angélica (Foto: Brunno Rangel/ Divulgação)

Angélica (Foto: Brunno Rangel/ Divulgação)

Enxerga que as mulheres estão mais unidas?
A gente não quer ser mais, a gente quer igualdade. Homem sempre teve um poder de fala maior. As mulheres não se colocavam. A gente não se posicionava. Recentemente, tivemos o exemplo da Kamala Harris, candidata eleita vice-presidente dos Estados Unidos, em que o cara não deixava ela falar. Acho que hoje as mulheres não aceitam mais esse lance de não poder falar. Hoje temos mais formas de ver, ouvir, falar. É uma questão globalizada. Esse é o lado bom dessas maquininhas [aponta o celular].

Nota que a Eva tem uma relação mais de “igual para igual” com os meninos da escola, com os irmãos?
Total. Existem "pré-conceitos" da nossa geração que nem passam pela cabeça deles, tanto da Eva, como dos meninos. Para os adolescentes, a igualdade de gênero é muito natural. Para nós, às vezes, ainda espanta. Para eles, não só não espanta, como também eles não entendem porque espanta os outros. Eles são uma geração mais conectada, com valores mais profundos e mais verdadeiros. Procuro valorizar essas questões com eles. Ter conversa, ter diálogo, estar aberta. A minha relação com meus filhos é muito aberta.

 

Angélica (Foto: Brunno Rangel/ Divulgação)

Angélica (Foto: Brunno Rangel/ Divulgação)

O diálogo é o mais importante?
Eles têm acesso a muita informação. Se eles não conversarem comigo ou com o pai sobre determinadas coisas, eles vão saber anyway. Eles terão a informação. Então, é melhor que eles saibam da forma correta, conversando comigo ou com o pai. É importante estarem em um contexto amoroso para conversar. O acesso a tudo eles têm. A gente procura ter uma relação muito aberta com eles. Às vezes, é difícil.

Você já se sentiu “para trás” perto deles?
Eu me sinto para trás o tempo inteiro, principalmente nesse lado de tecnologia. Conecta o Skype, coloca senhas, nossa… e TikTok? Eu não consigo (risos). Já tentei duas vezes. Já me pediram para fazer divulgação de música e acabei chamando a Eva. Disse: ‘Minha filha, grava para mamãe porque eu não vou conseguir’ (risos). Preciso de um curso para aprender e eu não quero aprender. Já vi que não tenho jeito para isso. Ela, com 8 anos, gravou, editou e me deu. Como estava às vésperas da estreia do programa, estava sem tempo. Um dia ainda vou conseguir usar o TikTok. Para gente é um esforço; para eles, qualquer plataforma e aplicativo novo são dominados em 15 minutos. Para mim, tenho que chamar um professor para ensinar. No caso, meus filhos.

Angélica (Foto: Brunno Rangel/ Divulgação)

Angélica (Foto: Brunno Rangel/ Divulgação)

E eles ajudam numa boa?
Eles não têm paciência para ensinar. Eles falam em uma linguagem mais acelerada (risos). A Eva tem paciência comigo, os meninos mais ou menos. Eles já nasceram com a tecnologia na mão. Quando falo com meus pais no WhatsApp ou Instagram, eles olham com uma cara quase de espanto para a tecnologia de lá, coisa que nós já dominamos. São gerações. Acho que a gente aprende muito com os filhos, especialmente essa coisa livre que eles vivem hoje, uma maior igualdade e a chance de falar com os pais sobre os mais diferentes assuntos.

Assuntos que seriam tabu no passado?
Estamos mais seguros para falar. Isso é uma questão de geração. A geração dos meus pais não tinha essa segurança. Isso é muito legal.

Angélica (Foto: Brunno Rangel/ Divulgação)

Angélica (Foto: Brunno Rangel/ Divulgação)

Os meninos são adolescentes. Já se sentiu magoada com alguma resposta mais atravessada?
Tem momentos, especialmente quando eles estão jogando aqueles games, em que chego da gravação morrendo de saudade. Aquela coisa da mãe louca que chega e quer abraçar… Vamos fazer uma reflexão? Quando eles eram pequenos, eles ficavam ligando. ‘Mãe, você está chegando?’, ‘Mãe, você vai me botar para dormir?’, ‘Mãe, você vai ler historinha?’… Voltava numa ansiedade. Chegava exausta e pensava que ainda teria que fazer o dever de casa com eles, escovar os dentes, botar para dormir… A Eva ainda é assim, mas os meninos não. Já fazem tudo sozinhos, tem autonomia. Às vezes, chego correndo, achando que eles vão estar me esperando de braços abertos e morrendo de saudade, mas eles estão nem aí. Estão jogando, falam só um ‘e aí, tudo bom?’. Isso quando falam ‘oi, tudo bom’ e não fazem só um aceno e continuam jogando (risos). Já me peguei meio triste. Poxa, eu com tanta saudade… Será que eles não estão com saudade de mim? Loucura, né? Loucura de mãe. Como tenho a Eva, com 8 anos, ainda escuto: ‘Mamãe, vem fazer o dever comigo’, ‘Mamãe, me bota para dormir’… Tenho esses momentos com ela, mas sei que daqui a pouco não terei mais. Assim que é a vida. Já levei foras nesse sentido. ‘Mãe, me deixa terminar essa partida que já falo com você’. Eles estão crescendo e, por outro lado, é muito divertido e muito bom vê-los se transformando em pessoas, com seus amigos, com seus interesses. A adolescência é uma fase em que eles querem se autoafirmar, ter outras referências – não só os pais – e é legal você dar esse espaço para que eles tenham outras referências e se entendam como indivíduos. Isso é saudável, mas não é fácil.

O Joaquim, dentro de poucos anos, estará na faculdade. Ele já manifestou vontade de estudar fora? Você já pensou como vai encarar isso?
Sim, já penso, já penso… Ele já fala sobre isso, mas não tem nada concreto. Penso por dois lados. Hoje eles vivem em uma proteção e um estilo de vida que, às vezes, impede que tenham uma autonomia maior. Acho que seria muito bom para meus filhos terem essa autonomia, não estar com os pais, acho que seria uma experiência incrível para eles. Por outro lado, tem meu lado mãe – e nem sou daquelas super rigorosas – de querer ter meus pintinhos embaixo das asas. Já dá um frio no estômago, mas sei o quanto seria bom para eles essa autonomia que, aqui, sei que não teriam. Por mais que eu dê liberdade e por mais que eu tente, é mais difícil [aqui no Brasil].

Angélica (Foto: Brunno Rangel/ Divulgação)

Angélica (Foto: Brunno Rangel/ Divulgação)

Se algum deles se mostrasse interessado pela carreira artística, como encararia?
Eu apoiaria. Tive momentos em que pensava: "de jeito algum". Sempre tive muito medo de que isso fosse a vocação deles. Aquele lance de por ter pai e mãe na TV, virar uma realidade para eles e ser a única realidade que conhecem. Sei o quanto é importante gostar do que se faz. Sou muito privilegiada. Gosto do que faço, nasci para isso. Cada um tem seu papel no mundo. Tive muito medo de ser uma inspiração única. É muito sedutor o que a gente faz, a gente lida com o imaginário, com a alegria, com o amor da pessoas.

Existia essa preocupação que eles acabassem encantados pelo lado bom que o meio oferece?
Tinha medo que eles caíssem nesta sedução. Hoje, com eles mais crescidos, começo a me tranquilizar porque vejo que meus filhos têm muita personalidade. Benício gosta muito de música, faz muitas edições de vídeo. Há algo artístico ali, mas ele é muito ele. Não tem nada a ver com o trabalho que a gente faz. Essa geração faz de tudo um pouco. Eles farão o que quiserem. Pode ser que, lá na frente, seja isso [carreira artística] e vou apoiar. A Eva é um pouco mais artista, faz dança, faz teatro, adora falar. Eu me vejo muito em algumas coisas dela. Não vejo que a Eva seja inspirada em mim ou no pai. É a geração dela, essa geração do TikTok, com uma influência da tela muito forte. O que eu sempre digo: se eles quiserem, vão ter que estudar. Para mim, deu certo a carreira. Era minha vocação, um dom. Foi maravilhoso, mas poderia não ter acontecido.

Muitos talentos mirins ficam pelo caminho e você seguiu firme.
Minha mãe foi instintivamente me levando. Foi uma intuição de mãe. Acredito muito em intuição, mas cada um tem sua história. Quer ser ator? Vai estudar. Quer cantar? Vai estudar. Tem que estudar sempre. Se meus filhos forem para o meio artístico, eu vou apoiar total. A arte é linda, forte e potente.

Angélica (Foto: Brunno Rangel/ Divulgação)

Angélica (Foto: Brunno Rangel/ Divulgação)

Na quarentena, acredito que muita gente percebeu o quanto a arte é necessária, né?
A quantidade de live que a gente viu. É companhia, né? É bom ouvir coisas boas. A arte modifica, transforma, espiritualiza. É um dom. Se um dos meus filhos tiver esse dom, vai ser legal, mas ainda não sei.

Seus filhos não são crianças superexpostas, mas também não são aquelas crianças enclausuradas, que nunca vimos o rosto. Como fizeram esse balanço da exposição?
Foi natural. O Joaquim, nosso primeiro filho, nos deixou muito apaixonados e com certo medo. A mídia também era outra, funcionava de outra forma. A gente sempre procurou fazer um balanço. A quantidade de comercial que propunham – ainda propõem – para fazermos com eles era grande, mas a gente nunca se sentiu à vontade para expô-los a esse ponto. Existe um amor das pessoas que acompanha as nossas vidas. A minha, especialmente, desde muito cedo. Não me sentia confortável em não mostrá-los, não achava que seria orgânico ficar escondendo, mas também não achava justo com a criança expor sem ela pedir. Então, ficamos sempre no caminho do meio. A gente procurou o caminho do meio. Hoje, maiores, eles têm mais autonomia. Estou fazendo uma foto e eles querem vir, ah, então vem. Dou a opção. Fiz uma capa de Dia das Mães para o Ela e eles adoraram, mas perguntei se eles queriam. Para Eva, praticamente nem precisei perguntar porque já foi dizendo “é claro”. Foi divertidíssimo, eles gostaram, escolheram a roupa que iriam usar. Com os grandes já posso dialogar mais sobre isso. A Eva protejo um pouco mais. A gente procura ter um equilíbrio. Nem muito, nem pouco. Respeitando eles principalmente, mas também respeitando o desejo das pessoas, esse amor das pessoas pela nossa família. Afinal, energia boa é sempre bem-vinda.

A convivência no isolamento social tem sido desafiadora para muitos casais. Vocês tiveram aquele momento de “tomara que o trabalho volte logo ao normal para ter um respiro” ou “precisamos de um momento a dois, vamos no trancar no quarto para as crianças não interromperem”?
Na verdade, no meio da pandemia a gente decidiu que tinha que ter uma rotina. Criamos uma rotina para namorar, para conversar, para ficar junto. As crianças vão dormir às 9 da noite e, aí, a gente senta para jantar, conversar, ter nossos momentos, ver um filme… O que mudou foi nosso horário. Como a gente passou a ter esse tempo a partir das 9 da noite, a gente passou a dormir só umas  2h da manhã. É muito assunto, muito filme para ver, é muito tudo (risos). Antes, eu ia dormir, no máximo às 23h. E acabo acordando relativamente cedo. Acordo às 8h da manhã. Não é tão cedo, mas é cedo para quem foi dormir às 2h, né? Nossos horários mudaram justamente pela nossa vontade de querer ficar junto e de ver um filme, uma série…

Angélica (Foto: Brunno Rangel/ Divulgação)

Angélica (Foto: Brunno Rangel/ Divulgação)

E o homeschooling foi desafiador?
As crianças também criaram uma rotina nova de horários. A Eva, agora, tem frequentado a escola presencialmente duas vezes por semana. Nas outras três vezes, estuda em casa. Durante a pandemia toda, eu fui a professora, a merendeira, a tia da cantina, a coordenadora e a diretora, quando precisava ser mais brava (risos). Eu entrei nessa onda. Há dois meses, quando voltei a gravar, essa rotina mudou, mas antes disso minhas manhãs eram da Eva, acompanhando ela no homeschooling. Entre um intervalo e outro, eu malhava, fazia meus exercícios. Ao meio-dia e pouco, os meninos desciam das aulas deles e almoçávamos todos juntos. Essa foi nossa rotina real por quatro meses. As aulas dos meninos acabam às 3 da tarde. As aulas da Eva acabam antes, mas ela manteve uma rotina de aulas de balé, jazz e sapateado de forma online.

Você é uma mãe bem participativa. Como reserva um tempo para você?
Antes de retomar as gravações, eu separava a parte da tarde para meditar, ler, ter um tempo para mim. O programa parou na pandemia. A gente não sabia se iria voltar ainda neste ano. Achávamos que ficaria só para 2021. Nisso, surgiu o Cartas para Eva. Nesses últimos anos entrei muito em um processo de autoconhecimento, processo de me espiritualizar, de me conectar comigo mesma. Acabei buscando pessoas que admiro na internet, fiz algumas conexões mais ‘namastê’ (risos). Essas conexões me fazem muito bom e me trouxeram coisas bacanas para a minha vida. Quis me conhecer, me interiorizar e viver algo que ainda não havia tido a oportunidade de viver.

Angélica (Foto: Brunno Rangel/ Divulgação)

Angélica (Foto: Brunno Rangel/ Divulgação)

Esse processo de autoconhecimento veio depois do acidente de avião em 2015? O que aprendeu?
Esse processo se intensificou nos dois últimos anos, na verdade. Foi quando me afastei da rotina de gravações. Acho que uma das percepções foi que, quando a gente está no olho do furacão, a gente só vê escuridão e não encontra luz. Isso não é real, afinal existe luz em tudo e só depende da forma como você enxerga as situações. Uma coisa ruim hoje pode se tornar algo muito positivo amanhã. Quando a gente trabalha no amor e não na dor, a gente não precisa sofrer o tempo todo. Nós temos que enxergar as coisas boas. Tenho escrito e lido muito. Já estava em uma quarentena antecipada antes da pandemia e isso me proporcionou uma nova rotina. Eu e o Luciano nos envolvemos em alguns projetos solidários, fiz alguns leilões para ajudar instituições. Ficamos três, quatro meses envolvidos com esses projetos e eles não são simples, há reuniões… Foi muito bacana ver a solidariedade das pessoas. A gente ligava e as pessoas se propunham a ajudar. Muita gente foi ajudada na pandemia, vimos a mobilização. Vimos muita coisa ruim, mas também vimos muita coisa boa.

Você gosta de se imaginar no futuro? Afinal, vira e mexe surgem aqueles comentários de “futura primeira-dama”, “futura Hebe”... Consegue fazer uma projeção ou adotou o estilo “deixo a vida me levar”?
Nesse momento, estou bastante assim, no modo Zeca Pagodinho (risos). Já fui de planejar muito, de viver pela expectativa do outro. Agora, vivo o hoje. Quando você descobre o que te faz bem, a expectativa do outro passa a ter um peso bem menor. É difícil viver na expectativa do outro, você decepciona… Vivo o presente, vivo meio Zeca Pagodinho, sim, deixando a vida me levar, mas também levando a vida. Acho que é a gente que leva, conduz. A mente, às vezes, mente. O Simples Assim é um espelho do que estava vivendo nos últimos dois anos. Queria muito esse formato na TV aberta. Não faço planos no sentido de “futura Hebe” ou “futura primeira-dama”. São expectativas que não são minhas, são quereres de outros. Por que vou planejar isso? Eu observo, acho interessante, acho carinhoso. No caso da Hebe, acho um luxo (risos). No caso de primeira-dama, às vezes, acho divertido; às vezes, acho chato. Por um lado, acho legal as pessoas que visualizam com um olhar amoroso, com um olhar de esperança. Afinal, o país está em um momento difícil mesmo. Mas quando é numa onda de fazer piada ou de te colocar em uma situação embaraçosa, aí acho ruim. A gente já vive uma situação tão difícil no mundo – não só no Brasil – politicamente falando, que não quero entrar nessa energia. Não quero essa energia para mim agora.

Conversando com você, é nítido como a energia é fundamental para seu bem-estar. E a relação com o físico é boa atualmente? Já fez muitas loucuras no passado?
Já fiz loucuras, sim. Quem nunca, né? Quando a gente é jovem, a gente acha que é imortal, que vai ter sempre saúde. Aí, você vai descobrindo que não é bem assim. Hoje, eu prezo pela saúde. Já fiz muitas dietas de passar fome, quase desmaiar, tomar remédio, tomar shake a semana inteira, aqueles esquemas loucos. Jovenzinha isso não pegava nada, mas não dá mais, não é por aí. Por ter passado por tudo isso, tenho muito conhecimento do meu corpo. Sei o que funciona para mim. Gosto de fazer exercício, gosto de suar, gosto de alongar, de fazer ioga. Faço pilates há 13 anos, mas não sou aquela ‘pilateira’ de acrobacias (risos). Faço muay thai e musculação porque, depois dos 40, a musculação é fundamental de fazer. Tudo é muito para a minha saúde e minha serotonina. Claro que acaba refletindo no tônus, na beleza. Mas, sinceramente, hoje isso não é o carro-chefe da minha vida como já foi, no sentido de ter a necessidade de estar magra, sarada… Nada disso. O importante é estar bem.

E os cuidados com a beleza?
Tenho meus rituais de beleza. Uma vez por mês vou a minha dermatologista, Karla Assed, e faço peeling, laser… Nunca fiz cirurgia plástica e quero evitá-la ao máximo, ir no limite para não fazer uma intervenção maior. Acho que sou meio medrosa. Tenho medo de dar errado (risos). Sempre pergunto para Karla se tem alguma novidade. Ela sabe o que eu gosto e eu me cuido. Claro, muito por conta do meu trabalho. Por estar aqui, na tela, você acaba se cobrando um pouco mais.

 

Angélica (Foto: Brunno Rangel/ Divulgação)

Angélica (Foto: Brunno Rangel/ Divulgação)

Neste meio artístico, há uma cobrança maior pela vaidade?
Você acaba lidando com a vaidade de uma outra forma, mas me assusta muito essa vaidade das telas, especialmente para os mais jovens. Comigo já não pega. Minha filha vive com um aparelho nas mãos, com esses filtros e tenho medo dessa distorção da realidade. As meninas ficam tentando ser aquilo que aparece nas redes, mas para chegar àquilo houve Photoshop, filtros... Para minha filha, eu falo: “É linda essa pessoa aqui na internet, mas pensa que suas amigas, ao vivo, também são lindas. Tenta olhar fora da tela para você se inspirar”. Essa inspiração das telas foge da realidade e tenho medo do que isso pode causar na cabeça dessas meninas. É cedo para falar e projetar onde pode dar, mas merece atenção.

Se existissem as redes sociais na sua adolescência ou mesmo no início da vida adulta, você acha que daria uma "pirada"?
Acho que sim. As cobranças existem. Vejo meninas muito novas fazendo intervenções, colocando boca, colocando nem sei mais o quê… Do que isso é reflexo? Das pessoas que elas veem nas redes sociais. Hoje, tenho uma noção do meu corpo, do que fica bom e do que não fica. Fico bem preocupada com essa visão distorcida que a internet acaba trazendo a essas meninas mais novas. É importante, como pais, orientar e falar para olhar para o lado. As referências que também podem inspirar podem estar ao lado e não necessariamente nas telas. A gente vive um momento diferente e também estou aprendendo.

Angélica é a Capa da Semana na Quem (Foto: Brunno Rangel/ Divulgação)Angélica é a Capa da Semana na Quem (Foto: Brunno Rangel/ Divulgação)

*Quem