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Como o Corinthians se tornou o primeiro campeão do mundo da Fifa e por que os rivais questionam

Como o Corinthians se tornou o primeiro campeão do mundo da Fifa e por que os rivais questionam

(Imagem: Otávio Magalhães/Estadão Conteúdo)

Dois versos, uma estrofe, três palavras e apenas dez letras diferentes. Tão simples quanto poderoso. Não é bem uma música, mas quase um mantra quando entoado a plenos pulmões.

Há divergências sobre a data exata em que o grito de "Todo poderoso Timão" foi criado e cantado pela primeira vez, mas não existe qualquer dúvida sobre o dia em que ele ficou eternizado na história. Há exatos 20 anos, na quente noite de 14 de janeiro de 2000, uma sexta-feira, o grito embalou o Corinthians no Maracanã diante do Vasco, na conquista do Mundial de Clubes, o primeiro organizado pela Fifa.

Muita coisa mudou nessas duas décadas que se passaram desde que Freddy Rincón ergueu a taça no Rio de Janeiro. O Corinthians atravessou o mundo para conquistá-lo outra vez, em 2012, no Japão, e a Fifa alterou o formato da competição, que nunca mais aconteceu no Brasil.

Rincón levanta a taça de campeão do mundo da Fifa em 2000 - Otávio Magalhães/Estadão ConteúdoRincón levanta a taça de campeão do mundo da Fifa em 2000 - Otávio Magalhães/Estadão Conteúdo

Porém, algumas tradições foram mantidas. Uma delas é a presença do "Todo poderoso Timão" no repertório musical da Fiel Torcida. Outra é a polêmica em torno daquele título mundial, que até hoje tem a sua importância contestada por rivais corintianos.

Abaixo, o GloboEsporte.com conta essa história, mostra como ela consolidou o Corinthians como o Poderoso Timão e explica por que 20 anos depois a sua conquista ainda gera tanto debate.

A CRIAÇÃO

Depois de algumas tentativas frustradas, idas e vindas, a Fifa escolheu o ano 2000 para organizar pela primeira vez uma competição entre os melhores de cada continente.

Sonhando sediar a Copa do Mundo de 2006 (o que aconteceria em 2014), o Brasil se articulou para receber o torneio, que serviria de teste para a candidatura do país. São Paulo e Rio de Janeiro foram as sedes.

Até então, o que conhecíamos como Mundial era uma disputa entre os campeões sul-americano e europeu. A Copa Intercontinental, criada em 1960, passou a ser disputada em jogo único, no Japão, partir de 1980.

No novo modelo, oito clubes de cinco continentes:

Info mapa mundi Corinthians 2000 - GloboEsporte.comGloboEsporte.com

Como é possível notar, nem todos os participantes eram os atuais campeões de seus respectivos continentes, o que ajuda a explicar a ausência do Palmeiras, campeão da Libertadores de 1999. A escolha, porém, foi influenciada por questões comerciais e políticas, o que sempre gerou contestações dos alviverdes (veja mais abaixo).

O Mundial de Clubes foi disputado em apenas dez dias, em fórmula simples: dois grupos com quatro equipes, em que só o melhor avançaria para a final, a ser disputada em jogo único.

O ESQUADRÃO

Bicampeão brasileiro (1998-1999) e campeão paulista (1999), aquele Corinthians jogava muito. Literalmente! Em 1999, a equipe disputou incríveis 83 partidas, sendo que a última delas foi a final do Campeonato Brasileiro, contra o Atlético-MG, duas semanas antes da estreia no Mundial.

– Chegamos como o Exército de Brancaleone. Era muita contusão, uma aflição danada para saber se todo mundo tinha condição de jogo. Mas tínhamos um time de homens, que se uniu em prol de uma conquista histórica – relembra Carlos Nujud, diretor de futebol do Timão na época.

O lendário time começou a ser formado em 1998, com Vanderlei Luxemburgo, que no fim daquele ano foi para a seleção brasileira e deixou o auxiliar Oswaldo de Oliveira em seu lugar.

Mais do que fazer ajustes técnicos e táticos, o treinador tinha a missão de gerenciar um vestiário efervescente:

– A partir do convencimento, eles foram ótimos, porque sabiam do que precisavam. Eu me lembro de uma frase do Rincón: "Não quero jantar com ele (Marcelinho Carioca), não quero ser amigo dele. Mas dentro de campo vou passar a bola para ele" – conta Oswaldo de Oliveira.

A montagem do esquadrão só foi possível graças a uma parceria com o fundo norte-americano Hicks Muse Tate and Furst, que controlou o futebol alvinegro de abril de 1999 a 2002.

De acordo com reportagem da "Folha de S.Paulo" publicada no dia da final do Mundial, até aquela data a HMTF já havia liberado R$ 53 milhões para o Corinthians pagar dívidas e contratar reforços.

A DECISÃO

Se o Corinthians tinha um grande time, o Vasco, rival na decisão, não ficava para trás. A equipe comandada por Antônio Lopes contava com craques como Edmundo, Felipe, Juninho e Mauro Galvão.

Como se não bastasse, no fim de 1999, Eurico Miranda, presidente cruz-maltino, ainda contratou Romário para buscar o título mundial.

Mesmo com tantos talentos em campo, a final no Maracanã foi mais brigada do que jogada. Nervosos e desgastados, os times empataram sem gols no tempo normal e também na prorrogação.

Dida, goleiro do Corinthians, defende a cobrança de Gilberto, do Vasco - Delfim Vieira/Estadão ConteúdoDida, goleiro do Corinthians, defende a cobrança de Gilberto, do Vasco - Delfim Vieira/Estadão Conteúdo

73 mil pessoas acompanharam a decisão no estádio. Embora em minoria, os corintianos cantaram mais alto em boa parte do jogo, que ficou marcada como a segunda invasão da Fiel ao Maracanã (a primeira foi na semifinal do Brasileirão de 1976, contra o Fluminense). 

Nos pênaltis, Rincón, Fernando Baiano, Luizão e Edu marcaram para o Corinthians, que ficou mais perto da taça quando Dida defendeu cobrança de Gilberto. A bola do título esteve nos pés de Marcelinho Carioca, cobrador oficial da equipe, mas ele parou em Hélton.

Coube, então, a Edmundo fechar as batidas vascaínas. O camisa 10 deslocou Dida, mas exagerou na força do chute e mandou para fora. A Fiel Torcida foi ao delírio e invadiu o gramado do Maracanã para celebrar a conquista. Pela primeira vez em 89 anos de história, o Todo Poderoso era campeão mundial.

Versão 3 - Campanha do Timão 2000 - GloboEsporte.com


POLÊMICAS

O ineditismo e as peculiaridades do Mundial de 2000 sempre serviram de munição para rivais do Corinthians desvalorizarem aquela conquista.

Os argumentos são os mais variados e muitos deles para lá de subjetivos, como o fato de a final ter sido numa sexta-feira e não ter contado com transmissão da TV Globo.

Uma das muitas controvérsias é a ausência do Palmeiras, campeão da Libertadores de 1999. Só que o representante sul-americano foi o Vasco, dono da América em 1998.

Às vésperas da final da Libertadores de 1999, a Conmebol formalizou o convite aos cariocas, garantindo ao mesmo tempo a presença de um clube do Rio, uma das cidades sedes, e evitando a presença de um time de menor expressão. No caso, o Deportivo Cali, da Colômbia, adversário do Palmeiras na final. 

Na época, a diretoria alviverde não questionou a decisão, pois tinha a promessa de que o clube disputaria o próximo Mundial. Supostamente essa edição seria na Espanha, mas nunca ocorreu.

Prazer, Edilson! Veja 5 fatos sobre o título Mundial do Corinthians em 2000

Nesses 20 anos desde que Rincón ergueu a taça, o título mundial do Corinthians rendeu inúmeras polêmicas.

Em 2005, a Fifa esqueceu de mencionar a conquista corintiana em texto em seu site oficial que tratava dos campeões mundiais.

Se hoje já estamos acostumados com a Fifa organizando uma competição entre os melhores times do mundo no final de cada ano, o mesmo não aconteceu após o Mundial de 2000.

Depois da conquista corintiana, a entidade máxima do futebol prometeu novas edições do torneio, mas só voltou a realizá-lo em 2005.

Boca Juniors, da Argentina, foi campeão da Copa Intercontinental em 2000 - Shaun Botterill /Allsport
Boca Juniors, da Argentina, foi campeão da Copa Intercontinental em 2000 - Shaun Botterill /Allsport

Enquanto isso, a Copa Intercontinental, reunindo campeão da Liga dos Campeões e da Copa Libertadores, continuou sendo realizada no Japão – houve uma edição inclusive em dezembro de 2000, quando o Boca Juniors venceu o Real Madrid.

Para muitos, esse hiato deu a sensação de que o Mundial de 2000 não passou de um teste, com importância menor. Até mesmo corintianos cometeram gafes ao falar sobre aquele título.

– Era um Mundialito. Mas, sinceramente, muitos jogadores do nosso time (Real Madrid) ficavam acordados até as 5h, 6h. O pessoal não dormiu, muitos vieram a passeio – comentou Roberto Carlos, em 2010, quando defendia o Corinthians.

Em 2007, Marcelinho Carioca também afirmou que aquele torneio "não era a mesma coisa" da Copa Intercontinental e que, apesar de importante, "não valeu como Mundial". Depois, em 2014, o Pé de Anjo mudou o tom e afirmou que o Timão era o primeiro campeão do mundo.

Os diversos problemas na organização do evento no Brasil, como dificuldades na compra de ingressos e públicos pequenos em alguns jogos (o Corinthians estreou diante de 23 mil pessoas no Morumbi), também foram usados para diminuir aquela conquista.

Fato é que aquela competição em 2000 serviu de inspiração para o modelo adotado pela Fifa para o Mundial a partir de 2005 – e que deve ser mudado a partir de 2021.

– Começamos em 2000, com o campeonato organizado no Brasil, nas cidades de Rio de Janeiro e São Paulo. Nós tivemos a final com dois times do mesmo país, Corinthians e Vasco. Após a  vitória do Corinthians, falamos: "Algo está errado, precisamos de um novo formato. Não podemos ter dois times do mesmo país na decisão" – declarou Joseph Blatter, então presidente da Fifa, em 2010.

A vida dos "antis", como os corintianos chamam seus rivais, ficou mais difícil depois de 2012. Naquele ano, o Corinthians voltou a ser campeão, mas desta vez sem dar espaço para nenhuma contestação: venceu a Libertadores, foi até o Japão (acompanhado por uma multidão) e levantou a taça da Fifa após bater um adversário europeu – o Chelsea, da Inglaterra. O Todo Poderoso Timão voltava a ter o mundo a seus pés.

As taças conquistadas pelo Corinthians nos mundiais de 2000 e 2012 - Bruno Teixeira/Ag.Corinthians
As taças conquistadas pelo Corinthians nos mundiais de 2000 e 2012 - Bruno Teixeira/Ag.Corinthians

DUAS VEZES TIMÃO

Até aqui, a Fifa organizou 16 edições do Mundial. O Corinthians, com as conquistas de 2000 e 2012, é o terceiro time com mais títulos, atrás apenas dos espanhóis Real Madrid (quatro) e Barcelona (três).

Veja quem mais já levantou a taça:

Lista de campeões do mundo pela Fifa - GloboEsporte.com
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