Aguarde. Carregando informações.
MENU

Domingo, 29 de março de 2026

Mundo

Como a escravidão, crime mais grave contra a humanidade, ainda impacta o Brasil e o mundo

ONU classifica o tráfico transatlântico de africanos escravizados como o crime mais grave contra a humanidade. Decisão histórica gera debate global sobre racismo, reparação e desigualdades atuais.

Como a escravidão, crime mais grave contra a humanidade, ainda impacta o Brasil e o mundo

O presidente de Gana, John Dramani Mahama, discursa na Assembleia Geral da ONU durante sessão para votação de resolução que considera o tráfico de escravizados africanos como o pior crime da humanidade, em 25 de março de 2026. (Imagem: Jeenah Moon/ Reuters)

Uma decisão histórica da Organização das Nações Unidas (ONU) reacendeu o debate global sobre racismo, desigualdades e reparação histórica: o tráfico transatlântico de africanos escravizados foi classificado como o crime mais grave contra a humanidade.

A medida foi proposta por Gana, um dos países mais afetados pelo tráfico de africanos escravizados, e recebeu apoio de 120 países, entre eles o Brasil, considerado o último país das Américas a abolir a escravidão.

Na votação, países com passado colonialista, como Portugal, Espanha, França, Alemanha e Reino Unido, se abstiveram. Apenas três países votaram contra a resolução: Estados Unidos, Israel e Argentina.

Por que a decisão é considerada histórica? Para a fundadora e diretora executiva do Instituto Identidades do Brasil (ID_BR), Luana Génot, o peso simbólico da decisão está no reconhecimento das consequências atuais da escravidão.

“É histórica porque convida a sociedade a parar de relativizar a questão racial e suas consequências até hoje. Quando você vê um menino negro jogando bolinha no sinal da rua e levanta o vidro do seu carro, essa é uma consequência até hoje. E isso não penaliza só o menino, mas penaliza toda a humanidade”, afirma.
 

Segundo Génot, os efeitos da escravidão transatlântica ainda estruturam desigualdades no Brasil e no mundo.

A gente entende que o racismo e a escravidão transatlântica ainda criam consequências muito graves na dinâmica da sociedade no Brasil e no mundo. A gente sabe, em termos de concentração de renda e poder, quem tem mais renda e quem tem mais poder? A população branca. Quem tem menos renda e menos poder? A população negra, a população indígena.
— Luana Génot.

O impacto histórico do tráfico transatlântico

 

Entre os séculos 16 e 19, mais de 15 milhões de africanos foram escravizados e transportados por colonialistas europeus para as Américas e o Caribe. Milhões morreram durante a travessia. O processo durou cerca de 400 anos.

A resolução da ONU destaca justamente a escala desse processo e os impactos duradouros que ele deixou sobre africanos e pessoas com ascendência africana em diferentes partes do mundo.

ONU declara o tráfico de escravizados africanos 'o crime mais grave contra a humanidade'
 
 
 

ONU declara o tráfico de escravizados africanos 'o crime mais grave contra a humanidade'

Debate sobre comparação entre tragédias históricas

 

A decisão, no entanto, também gerou críticas. Há quem argumente que a classificação possa relativizar outras tragédias históricas, como o Holocausto.

Especialistas que defendem a resolução afirmam que o objetivo não é estabelecer uma disputa entre sofrimentos, mas reconhecer a dimensão global e os efeitos prolongados do tráfico transatlântico de escravizados.

“Que, por ser o crime mais grave contra a humanidade, não há uma hierarquia de dores e opressões. Não é que a escravidão e o tráfico transatlântico sejam mais graves, por exemplo, que o Holocausto. Não é. São dores que precisam ser tratadas, são problemas graves que precisam de políticas, precisam de tratamento e punições, inclusive”, acrescenta Génot.
 

O que a resolução destaca

 

A resolução aprovada pela ONU enfatiza a necessidade de enfrentar injustiças históricas que ainda afetam africanos e pessoas com ascendência africana.

A decisão também amplia o debate sobre como o passado escravista continua presente em desigualdades sociais, econômicas e raciais observadas até hoje.

*Deutsche Welle