O Irã dificilmente conseguiu reparar o estrago em seu arsenal provocado pela guerra de 12 dias contra Israel e os EUA, em 2025. Segundo analistas ouvidos pelo g1, os danos causados nas defesas do país agora dão a Donald Trump uma "excelente" oportunidade para atacar novamente e pressionar o regime do aiatolá Ali Khamenei.
O presidente dos EUA ameaça o Irã com uma ação militar caso o regime se recuse a negociar limitações ao seu programa nuclear. A pressão escalou nas últimas semanas com o envio de uma grande força ao Oriente Médio, com o porta-aviões USS Abraham Lincoln, navios de guerra e jatos de combate (veja mais abaixo).
Ainda não se sabe se o cerco militar de Trump será suficiente para fazer o regime Khamenei negociar um acordo nuclear, porém, uma coisa é certa: os EUA têm à frente uma grande oportunidade para atacar o Irã, afirmou ao g1 Ana Karolina Morais, pesquisadora da Universidade de São Paulo (USP) e do Núcleo de Pesquisa em Relações Internacionais (NUPRI).
“Do ponto de vista tático, acho difícil, mas não impossível, que Trump faça algo mais ousado ou até mesmo tente depor o aiatolá. Os EUA têm uma excelente oportunidade de atacar o Irã, porque a Rússia voltou as atenções para a Ucrânia, e Bashar al-Assad foi deposto. É como se a Síria fosse a única coisa que restava no caminho da escalada de EUA e Israel contra o Irã”, disse Ana.
Trump considera desde bombardeios até incursões dentro do país para pressionar por uma mudança de regime, segundo a mídia dos EUA. Já Teerã afirma que qualquer agressão militar norte-americana será interpretada como um ato de guerra e disse estar pronto para uma "resposta esmagadora".
Buracos na defesa x discurso iraniano
Apesar da retórica de força do regime iraniano, o país enfrentaria sérios problemas para se defender de um bombardeiro dos EUA e para responder de forma eficaz, afirmou ao g1 Vitelio Brustolin, professor de Relações Internacionais da UFF e pesquisador de Harvard.
"O Irã gastou muitos de seus mísseis contra Israel no ano passado e com certeza não tiveram condições de repor. Já a defesa aérea do Irã tem áreas descobertas e isso ficou claro nos bombardeios do ano passado. Dificilmente essas deficiências foram reparadas ao longo dos meses subsequentes aos bombardeios", afirmou Brustolin.
O governo iraniano, no entanto, afirma estar pronto para a guerra e diz que aumentou seus estoques de mísseis e drones. Segundo o general Reza Talaei-Nik, porta-voz do Ministério da Defesa iraniano, "a capacidade das defesas antimísseis do país foi fortalecida e se tornou mais eficaz graças às experiências adquiridas durante a guerra".
Mas, o discurso do regime iraniano é visto com cautela pelos analistas. Segundo eles, o país tenta se mostrar forte o tempo todo — inclusive, se declarou vencedor da guerra contra Israel e os EUA, o que não aconteceu.
Outro fator que contribui para desacreditar em parte as falas oficiais são as sanções internacionais impostas ao Irã, que dificultam a capacidade de adquirir novos armamentos e baterias de defesa aérea e também de reparar a indústria de mísseis (leia mais abaixo).
Para Vitelio Brustolin, dada a situação atual do regime Khamenei, Trump está em condições inclusive de tentar tirar o aiatolá do poder e colocar alguém alinhado aos interesses dos EUA, tal qual a Casa Branca fez na Venezuela. Autoridades dentro do governo dos EUA afirmaram ao jornal "The New York Times" que Trump passou a considerar essa possibilidade nos últimos dias.
Ataque por via aérea
Um ataque dos EUA contra o Irã necessariamente seria pela via aérea, já que os países não são vizinhos e não há indícios de preparativos para uma invasão terrestre a partir de países que fazem fronteira com os iranianos.
Nesse caso, o Exército norte-americano lançaria mísseis e jatos a partir de navios de guerra e de bases aéreas situadas em países aliados no Oriente Médio. É provável também que Israel se junte a uma ofensiva americana.
O cerco do Exército dos EUA ao Irã
Trump enviou o grupo de ataque USS Abraham Lincoln, que contém o porta-aviões de mesmo nome e ao menos três destróieres como escolta. A bordo do USS Abraham Lincoln estão ao menos 60 aeronaves de guerra. Veja a força militar abaixo:
- USS Abraham Lincoln (porta-aviões);
- USS Spruance, USS Michael Murphy, USS Frank E. Petersen Jr. e USS Delbert D Black (destróieres);
- Cerca de 56 jatos dos modelos F-35 e F-18 (a bordo do porta-aviões);
- Ao menos 1 submarino nuclear da classe Virginia;
As embarcações se juntaram recentemente à região do Comando Central do Exército dos EUA, que responde pelo Oriente Médio. Cada um dos destróieres citados tem capacidade para carregar até 96 mísseis Tomahawk, de longo alcance e difíceis de serem detectados.
Ao todo, há ao menos dez navios de guerra norte-americanos no alcance do Irã, segundo o jornal “The New York Times” (veja abaixo).
O porta-aviões e os destróieres Spruance, Michael Murphy e Frank E. Petersen Jr. estão no Mar Arábico, ao sul do Irã. Já o Delbert D Black está perto do porto israelense de Eilat, do outro lado da Península Arábica e a cerca de 1.200 km do território iraniano.
Segundo a Marinha dos EUA, outros cinco destróieres fazem parte do grupo de ataque do USS Abraham Lincoln e deveriam estar junto com o porta-aviões, são eles: USS Milius, USS Decatur, USS Kidd, USS Dewey e USS Wayne E. Meyer. No entanto, não foi possível determinar, com informações de rastreamento naval disponíveis publicamente, se essas embarcações estão presentes no Oriente Médio.
Os navios de guerra enviados por Trump são acompanhados por diversos jatos e outras aeronaves. Algumas estão a bordo do USS Abraham Lincoln e outras estão estacionadas nas 19 bases militares em diferentes países do Oriente Médio, como Catar, Arábia Saudita, Bahrein, Iraque, Emirados Árabes Unidos e Kuwait.
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— Foto: Gui Sousa/Arte g1
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— Foto: Editoria de Arte/g1
Como estão hoje arsenal e defesas do Irã?
Irã e Israel travaram, em junho de 2025, uma guerra de 12 dias com trocas de bombardeios. Cerca de mil pessoas morreram e outras 5 mil ficaram feridas no Irã. Em Israel, foram 28 mortos e cerca de 3,3 mil feridos. Os EUA se envolveram no conflito e bombardearam três instalações nucleares iranianas —Fordow, Isfahan e Natanz.
Após o fim da guerra, o Irã correu para reabastecer seu arsenal de mísseis, composto por projéteis balísticos e de cruzeiro, e em agosto realizou exercícios militares para demonstrar força. Segundo estimativas de institutos especializados, Teerã utilizou entre 500 e 600 mísseis e mais de 1.000 drones no conflito em 2025.
- Mísseis iranianos
Contando os mísseis utilizados e as eventuais perdas causadas por bombardeios israelenses, que alvejaram instalações militares e galpões, é possível que o arsenal de mísseis do Irã tenha caído dos estimados 3 mil no primeiro semestre de 2025 para cerca de 1.500 atualmente, segundo institutos especializados em assuntos militares.
Segundo Vitelio Brustolin, apesar das afirmações de Teerã, é quase improvável que o governo iraniano tenha conseguido repor seu arsenal nesses sete meses desde o conflito, levando em conta as sanções que enfrenta.
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Interior de uma das "cidades de mísseis" onde é armazenada uma grande quantidade de mísseis balísticos Kheibar — Foto: Tansim
- Defesas aéreas
O mesmo ocorre com as defesas aéreas do Irã, segundo Brustolin. Israel afirma que destruiu na guerra cerca de 40 sistemas S-300, de fabricação russa e altamente avançados. Dados do Instituto Internacional de Estudos Estratégicos (IISS) do início de 2025 afirmam que o Irã tinha ao menos 42 baterias de S-300 e S-200 como trunfo de sua defesa aérea.
O Irã tem defesas aéreas consideradas robustas, até por serem reforçadas por tecnologia russa. São um sistema multicamadas, com dezenas de dispositivos de médio alcance e centenas de baterias de curto alcance. No entanto, todo esse aparato falhou durante os ataques de Israel, segundo Ana Karolina Morais.
Segundo o IISS, um dos trunfos do Irã está em sua indústria militar, que “atingiu alto grau de proficiência na produção de alguns tipos de armamentos avançados”, como os mísseis e os drones. Os drones de ataque produzidos por Teerã estão entre os mais tecnológicos do mundo, e o regime Khamenei tem centenas de milhares desses projéteis em seu arsenal.
A combinação de seu programa de mísseis e a forte indústria drones de ataque compensam pela força aérea iraniana, que é “incapaz”, segundo o IISS.
Apesar de contar com mais de 270 jatos fabricados nos EUA e na Rússia, a falta de peças causada pelas sanções prejudica na prontidão dessa força.
Veja abaixo os jatos que o Irã tinha no primeiro semestre de 2025:
- 69 F-5;
- 55 F-4;
- 35 Mig-29;
- 29 Su-24;
- 18 F-7;
- 12 Mirage;
- 10 F-14;
- 6 Azarakhsh;
- 6 HESA Saegheh.