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Sexta-Feira, 12 de julho de 2024

Saúde

Consumo abusivo de álcool pelas mulheres quase dobra em 17 anos no Brasil

Consumo abusivo de álcool pelas mulheres quase dobra em 17 anos no Brasil

(Imagem: MARICY DE ANDRADE QUEIROZ/ESTADÃO CONTEÚDO)

O abuso de bebidas alcoólicas entre as mulheres brasileiras subiu de 7,8% para 15,2% entre 2006 e 2023. Isso significa que quase o dobro de entrevistadas declarou ao Vigitel (Sistema de Vigilância de Fatores de Risco e Proteção para Doenças Crônicas por Inquérito Telefônico) tomar quatro ou mais doses em uma mesma ocasião. A pesquisa, realizada anualmente pelo Ministério da Saúde, monitora indicadores sanitários da população brasileira.

De acordo com Lucas Benevides, psiquiatra e professor do curso de medicina do Ceub, muitos fatores contribuem para o aumento. “A crescente participação das mulheres no mercado de trabalho e as pressões associadas a essa mudança têm desempenhado um papel significativo. Além disso, mudanças culturais que normalizam o consumo de álcool entre as mulheres e o marketing direcionado também são influências importantes. Questões como depressão, ansiedade e experiências traumáticas, que podem ser mais prevalentes ou manifestadas de maneira diferente em mulheres”, explica.

Entre os homens, percentual teve variação pequena na séria histórica

Na mesma edição, o Vigitel mostrou que não foi identificada variação significativa no abuso de álcool entre os homens. O índice saiu de 25% no início da série histórica para 27,3% no ano passado. A elevação no consumo excessivo das mulheres ajudou a aumentar a média geral de abuso entre os brasileiros. No final de 17 anos, 20,8% das pessoas ouvidas declaram abusar das bebidas do tipo.

“O alcoolismo apresenta diferenças significativas entre os gêneros. As mulheres tendem a desenvolver dependência ao álcool mais rapidamente que os homens, um fenômeno conhecido como ‘telescoping’. Além disso, os efeitos fisiológicos do álcool são geralmente mais severos nas mulheres, devido a diferenças na composição corporal e no metabolismo. As mulheres também podem enfrentar estigmatização social mais intensa em relação ao consumo de álcool, o que pode impactar negativamente a busca por tratamento”, explica o psiquiatra.

Segundo Benevides, trabalhar as especificidades de gênero é um passo fundamental no tratamento das pessoas com dependência. “As abordagens terapêuticas devem ser sensíveis às necessidades específicas das mulheres, que podem incluir experiências de violência doméstica, responsabilidades familiares e diferenças na socialização. Além disso, fatores como histórico de saúde mental, suporte social e cultural, e acesso a recursos de tratamento podem influenciar significativamente a jornada de recuperação.

Adultos mais velhos e mais escolarizados abusam mais da bebida

O Vigitel também revelou um aumento maior no consumo abusivo entre os adultos com idades entre 25 e 34 anos, variando de 21,7% em 2006 a 29,8% em 2023. Aqueles que estudaram por 12 anos ou mais também declaram beber em excesso com maior frequência: 18,1% em 2006 a 24,0% em 2023. Mais recentemente, outra faixa etária, de 45 a 54 anos, registrou um grande salto: 14,7% bebiam cinco ou mais doses em uma mesma ocasião em 2018 contra 21,1% em 2023.

Entre as ferramentas disponíveis para apoiar as pessoas com dependência alcoólica, o psiquiatra cita políticas públicas voltadas para a redução de danos, campanhas de conscientização sobre os riscos do álcool e programas de prevenção nas escolas e comunidades. “Centros de tratamento e reabilitação, linhas de apoio psicológico, e grupos de apoio, como os Alcoólicos Anônimos, desempenham um papel crucial. Além disso, políticas que promovem o equilíbrio entre trabalho e vida pessoal e que fornecem suporte para a saúde mental são essenciais”, reforça.

Benevides lembra que apoio da família e de pessoas próximas é vital na recuperação do alcoolismo. “É importante abordar a questão com empatia e sem julgamento, incentivando a pessoa a buscar ajuda profissional. A participação em grupos de apoio familiar pode fornecer orientação e suporte emocional. Também é essencial estabelecer limites claros e buscar manter um ambiente doméstico seguro e saudável. Oferecer-se para acompanhar a pessoa em consultas e tratamentos pode fortalecer o compromisso com a recuperação”, aconselha.

De acordo com o especialista, é fundamental reconhecer que o alcoolismo é uma doença complexa e multifacetada que requer abordagens integradas de tratamento. O Plano de Ações Estratégicas para o Enfrentamento das Doenças Não Transmissíveis no Brasil estabelece como meta a redução da prevalência do consumo abusivo de bebidas alcoólicas em 10% até 2030.

Para isso, a média geral do país precisaria passar para, no máximo, 17% ao ano. A ONU (Organização das Nações Unidas) também incluiu uma meta específica sobre o uso nocivo do álcool nos ODS (Objetivos do Desenvolvimento Sustentável): fortalecer a prevenção e o tratamento do abuso de substâncias, incluindo o abuso de drogas narcóticas e o uso nocivo do álcool.

Pesquisa tem confiança de 95% e erro máximo de 4 pontos percentuais

A metodologia utilizada pela pesquisa é a amostragem com entrevistas realizadas por telefones fixos ou celulares. São ouvidos entre 1,5 mil e 2 mil indivíduos em cada um dos estados e no Distrito Federal. O estudo tem nível de confiança de 95% e erro máximo de quatro pontos percentuais. O levantamento auxilia o poder público na tomada de decisão para implementação de políticas de saúde.

*R7