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Sábado, 21 de março de 2026

Brasil

'Nem água nem R$ 15 mil', lamenta agricultor que contraiu dívida e encontrou possível petróleo no Ceará

Sidrônio Moreira, de 63 anos, fez um empréstimo em 2024 para perfurar dois poços em seu sítio na cidade de Tabuleiro do Norte e resolver um problema antigo na região: a falta de água encanada em casa.

'Nem água nem R$ 15 mil', lamenta agricultor que contraiu dívida e encontrou possível petróleo no Ceará

Agricultor Sidrônio Moreira furou poço em busca de água, mas encontrou óleo que pode ser petróleo. (Imagem: Marcelo Andrade/IFCE)

O agricultor Sidrônio Moreira, que encontrou uma possível jazida de petróleo em Tabuleiro do Norte (CE), não tinha intenção de achar o líquido. O seu objetivo inicial era encontrar água. Por isso, ele decidiu fazer um empréstimo de R$ 15 mil para perfurar dois poços artesianos no sítio onde mora. No entanto, encontrou apenas um líquido denso, preto, com cheiro de combustível.

Este imbróglio, no entanto, está longe de terminar. A família, que não tem acesso a água encanada em casa - e, por isso, depende de adutora e carros-pipa - espera um laudo definitivo da Agência Nacional do Petróleo (ANP) para saber do que se trata o material estranho achado no quintal.

 

Falta de água e dívida

 

Ao g1, Sidrônio conta que pensou em perfurar os poços artesianos para tentar sanar um problema antigo que afeta a região. A ideia era "ficar sossegado", mas, depois da possível descoberta de petróleo, o agricultou deve isolar as áreas das perfurações e evitar contato com o líquido preto. A dívida continua:

"Eu disse: 'Mulher, vamos fazer esse empréstimo pra furar esse poço'. Fizemos, fiquei animado, mas agora nem água e nem os R$ 15 mil. A gente se aperreia, né?! Meu pensamento era pegar o dinheiro, fazer esse poço (...), ficar sossegado. Mas, não deu. Vamos esperar por Deus, quem sabe não melhora?", lamentou.
 

Sidrônio e a esposa, Maria Luciene, vivem com dois filhos no Sítio Santo Estevão, a cerca de 35 km do centro de Tabuleiro do Norte. Sem acesso à água encanada, a família depende de adutora e carros-pipa para o abastecimento. A renda vem das aposentadorias do casal e da venda de animais, feijão e milho.

A família depende de uma adutora da região e carros-pipa para ter água em casa. Na foto está Maria Luciene, agricultora de 58 anos. — Foto: Gabriela Feitosa/g1

A família depende de uma adutora da região e carros-pipa para ter água em casa. Na foto está Maria Luciene, agricultora de 58 anos. — Foto: Gabriela Feitosa/g1

Depois do empréstimo, eles ficaram com as finanças comprometidas. Enquanto esperam uma resposta definitiva da ANP, Sidrônio não pode mais perfurar poços, e o problema da água continua. O caso começou em novembro de 2024, mas só neste ano a ANP visitou o local pela primeira vez.

O vice-prefeito de Tabuleiro do Norte, Antério Fernandes, afirmou que uma nova adutora - uma espécie de tubulação subterrânea criada para transportar grande volume de água - está sendo construída na zona rural da cidade e deve atender mais de 700 famílias. Uma delas é a família de Sidrônio e Luciene. O prazo para a construção é o fim deste mês de março.

A família não faz planos caso o líquido "estranho" encontrado no terreno seja mesmo petróleo. Em relação a isso, eles preferem "manter os pés no chão", como relatou ao g1 o filho de Sidrônio, Sidnei Moreira:

"A gente trabalha bastante com os pés no chão. A gente não sabe ainda o que é, se vai ser possível explorar esse material, a gente ainda não tem essa noção. E a gente vai continuar com a nossa vida normal no campo mesmo, porque nunca foi nossa intenção achar petróleo, sempre foi achar água".
 
Mãe e filho observam área em que segundo poço artesiano foi perfurado. — Foto: Gabriela Feitosa/g1

Mãe e filho observam área em que segundo poço artesiano foi perfurado. — Foto: Gabriela Feitosa/g1

Caso seja confirmado, o agricultor poderá 'lucrar'?

 

A resposta é complexa. Conforme os técnicos da ANP relataram ao g1, o agricultor não será dono do petróleo, pois a Constituição Federal determina que o subsolo e suas riquezas, incluindo o petróleo e o gás, são de propriedade e monopólio da União.

No entanto, Sidrônio poderá ter um retorno financeiro caso a área passe por um processo de exploração e produção comercial no futuro. Dessa maneira, o proprietário da terra tem direito a receber um percentual do lucro.

➡️Mas, atenção: primeiro a agência precisa analisar se vale a pena explorar a bacia, já que outros achados parecidos foram descartados por serem acúmulos pequenos.

Infográfico - Possível descoberta de petróleo registrada em Tabuleiro do Norte, no interior do Ceará. — Foto: Arte/g1

Infográfico - Possível descoberta de petróleo registrada em Tabuleiro do Norte, no interior do Ceará. — Foto: Arte/g1

Esse repasse financeiro, garantido por lei, pode chegar a até 1%, dependendo de vários fatores que precisarão ser avaliados.

Em resumo, embora o agricultor não tenha a titularidade sobre o recurso e não possa vendê-lo por conta própria, ele tem o direito de receber essa compensação financeira caso a extração comercial se concretize.

Relembre o caso

 

A substância semelhante a petróleo foi encontrada em novembro de 2024 enquanto o agricultor Sidrônio Moreira perfurava o solo em busca de água para abastecimento de animais da sua propriedade, na localidade de Sítio Santo Estevão.

Um vídeo gravado pela família em novembro de 2024 mostra o momento em que Sidrônio e a equipe contratada furam o primeiro poço. Em determinado momento, um líquido escuro emerge do buraco e o agricultor chega a comemorar, pensando se tratar de água. Semanas mais tarde, porém, a família descobriu que o líquido pode ser petróleo.

Localizado a cerca de 210 quilômetros de Fortaleza, Tabuleiro do Norte fica na divisa com o Rio Grande do Norte e faz parte da região do Vale do Jaguaribe. A região é contemplada pela Bacia Potiguar, uma área de exploração de petróleo localizada entre o Ceará e o Rio Grande do Norte.

A família e o IFCE procuraram a ANP ainda em julho de 2025 informando da descoberta, mas desde então a agência não havia respondido. Somente no dia 25 de fevereiro deste ano, o órgão se manifestou, respondendo a um pedido de informação do g1.

Mesmo que o petróleo seja confirmado, o agricultor não poderá comercializar o combustível, uma vez que, no Brasil, riquezas encontradas no subsolo pertencem à União. Conforme a legislação brasileira, a ANP deverá confirmar se a substância é de fato petróleo; mesmo se for confirmado, o dono do terreno não poderá extrair nem vender o combustível.

Equipe da ANP levou amostra colhida pelo IFCE para analisar. — Foto: Divulgação/IFCE

Equipe da ANP levou amostra colhida pelo IFCE para analisar. — Foto: Divulgação/IFCE

 

*G1