Domingo, 15 de fevereiro de 2026
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Por diferentes razões, em países ricos ou pobres, a preocupação com temas relacionados a condições financeiras ou a política econômica tira o sono da maioria da população
O tema lidera com ampla margem o ranking das preocupações e ganha ainda mais força na América Latina (Imagem: Reprodução/Unsplash)
A economia se consolidou como a principal fonte de preocupação da população no mundo, e o Brasil não escapa a essa estatística. Levantamento do Instituto Gallup, realizado em 107 países, indica que, na mediana global, 23% dos entrevistados apontam as questões econômicas como o maior desafio enfrentado por seus países.
O tema lidera com ampla margem o ranking das preocupações e ganha ainda mais força na América Latina, onde as pressões sobre renda, emprego e custo de vida se destacam no cotidiano da população. Na sequência, aparecem inquietações ligadas ao mercado de trabalho (10%), à política e à governança (8%) e à segurança (7%). Ao todo, 71 dos países analisados colocam a economia no topo da lista de problemas nacionais.
"A primeira avaliação global do que as pessoas consideram ser o problema mais importante de seus países mostra que as questões econômicas estão em primeiro plano em grande parte do mundo. Desde a dificuldade de suprir necessidades básicas em países de baixa renda até o enfrentamento do alto custo de vida em nações mais prósperas", aponta o documento.
No contexto latino-americano e caribenho, marcado por desigualdade estrutural, instabilidade fiscal e pressões inflacionárias recentes, a pauta econômica compartilha protagonismo com um desafio histórico: a segurança pública.
Na região, a violência aparece como a segunda maior preocupação da população, à frente, inclusive, das questões políticas. O dado dialoga diretamente com a realidade brasileira, onde os índices de criminalidade e a persistente sensação de insegurança nas grandes cidades continuam a influenciar o debate público.
Embora o levantamento revele uma base comum de apreensões — custo de vida elevado, erosão do poder de compra e dificuldade de acesso a bens essenciais —, também evidencia diferenças relevantes entre regiões e faixas de renda. O peso atribuído a cada problema varia conforme o nível de desenvolvimento econômico e as circunstâncias sociais de cada país.
Se na maior parte do planeta as questões financeiras predominam de forma isolada, na América do Norte (Estados Unidos e Canadá) a política ocupa o primeiro lugar entre as preocupações. Já na América Latina, o quadro se aproxima mais da realidade brasileira: dificuldades econômicas lideram, seguidas pela segurança e, depois, pelos impasses institucionais.
A percepção de crise econômica no Brasil é moldada por fatores estruturais que extrapolam os indicadores tradicionais, avalia o economista Otto Nogami, professor do Instituto de Ensino e Pesquisa (Insper). Segundo ele, embora 23% represente a média global de pessoas que apontam a economia como principal problema, no Brasil esse porcentual costuma ser mais elevado.
O economista atribui essa diferença a três fatores centrais: a inflação de itens essenciais, o endividamento das famílias e o alto nível de informalidade no mercado de trabalho. "A inflação que mais pesa é a dos itens inelásticos. O brasileiro médio gasta a maior parte da renda com comida, energia e transporte. Quando sobe o preço do arroz ou do combustível, a percepção de empobrecimento é imediata, mesmo que o IPCA cheio pareça sob controle", afirma.
O economista destaca ainda que o endividamento no país tem perfil distinto do observado em economias desenvolvidas. "Aqui, a família se endivida para pagar contas básicas, não para consumir supérfluos. É o boleto que vence amanhã. Isso gera um estado de alerta constante", diz. Ele acrescenta que a informalidade, que atinge quase 40% da força de trabalho, amplia a insegurança. "Sem FGTS ou seguro-desemprego, qualquer oscilação macroeconômica é sentida como ameaça existencial."
Há ainda uma relação direta entre economia e segurança pública no Brasil. "A violência funciona como um imposto invisível. Em regiões onde a pequena indústria fecha as portas, o crime organizado vira alternativa de renda. Além disso, o pequeno empresário gasta de 5% a 10% do faturamento com segurança privada, seguros e perdas por roubo. É recurso que deixa de ir para investimento produtivo e vai para a sobrevivência", observa o economista.
ECO-Dificuldades financeiras(foto: Valdo Virgo)
Renda e desigualdade
O estudo mostra que a renda do país influencia diretamente o tipo de inquietação predominante. Em nações de baixa renda, a preocupação econômica é ainda mais intensa. Nos países ricos, 21% mencionam a economia ou a dificuldade de arcar com necessidades básicas como principal aflição. Esse percentual sobe para 31% nos países de renda média-alta, 36% nos de renda média-baixa e atinge 38% nas nações de baixa renda.
"Nos países de baixa renda, onde a garantia das necessidades mais elementares frequentemente se impõe sobre outras preocupações, a população é mais propensa a identificar as questões econômicas — incluindo o desempenho da economia e o acesso a alimentos e moradia — como o principal desafio enfrentado por suas nações", destaca o relatório.
O Brasil, classificado como país de renda média-alta, posiciona-se em um ponto sensível dessa curva. Ainda enfrenta desigualdades estruturais significativas, com parcela da população exposta à insegurança alimentar e ao endividamento, ao mesmo tempo em que convive com demandas crescentes por serviços públicos de maior qualidade.
Nos países mais pobres, 14% mencionam especificamente a incapacidade de garantir alimentação e moradia, proporção muito superior à observada nos países ricos. Embora o Brasil não esteja nesse grupo, episódios recentes de aumento da fome e da pobreza recolocaram o tema no centro do debate nacional.
Juventude sob maior pressão
O recorte etário revela outro ponto de atenção que também ecoa no Brasil, a ansiedade econômica é mais intensa entre os jovens. Globalmente, 34% dos adultos de 15 a 34 anos apontam a economia ou o custo das necessidades básicas como principal problema nacional, ante 30% entre os maiores de 55 anos.
Em países desenvolvidos, essa diferença é ainda mais acentuada, sugerindo que mesmo em sociedades mais prósperas os jovens percebem dificuldades de inserção econômica, acesso à moradia e estabilidade profissional — desafios que também marcam a realidade brasileira, sobretudo diante de taxas historicamente mais altas de desemprego juvenil.
"O jovem estuda mais do que os pais, mas entra num mercado uberizado, de baixa agregação de valor. Soma-se a isso o crédito imobiliário proibitivo. Forma-se uma ansiedade geracional: a sensação de que os filhos podem ser mais pobres do que os pais", afirma Otto Nogami.
Frustração estrutural
As questões ligadas ao trabalho — desemprego, qualidade do emprego e condições laborais — aparecem como a segunda preocupação global mais frequente, com 10% das menções. Nas economias de renda média-baixa, o índice chega a 20%. No Brasil, onde a informalidade ainda representa parcela significativa da força de trabalho, o dado reforça que o problema não se resume à existência de vagas, mas à qualidade delas.
O Gallup destaca que a insatisfação não se explica apenas pelo desemprego formal. Pesam fatores, como subemprego, estagnação salarial e falta de perspectivas. A instituição estima que um aumento no engajamento profissional poderia adicionar US$ 9,6 trilhões à produtividade global, o equivalente a 9% do PIB mundial.
O estudo aponta ainda um descompasso entre os indicadores macroeconômicos valorizados por governos e as dificuldades concretas enfrentadas no cotidiano. "Essas descobertas destacam uma discrepância entre os indicadores econômicos que os líderes costumam priorizar e as pressões financeiras que as pessoas sentem no seu dia a dia", ressalta o relatório.
Nogami ressalta, ainda, a dissociação entre o crescimento do Produto Interno Bruto (PIB) e o poder de compra. "PIB não é sinônimo de bem-estar. O crescimento recente tem sido puxado por commodities, setores que geram muita riqueza, mas pouco emprego em massa. O pequeno empresário e o trabalhador sentem apenas a inflação residual e o juro alto. O PIB cresce no campo, mas o poder de compra morre no asfalto", diz.
Questões políticas e de governança, que incluem gastos públicos, impostos e corrupção, aparecem como a terceira maior preocupação global, com 8% das menções. Na América Latina, o índice chega a dois dígitos (10%), refletindo um ambiente de desconfiança institucional que também marca o Brasil. O estudo aponta que, em países de maior renda, cresce a tendência de enxergar a política como o principal problema nacional.
Em nações de alta renda, 14% citam política e governo como maior preocupação, contra 7% nos países de renda média-alta. O dado sugere que, à medida que as necessidades básicas se estabilizam, a atenção da população se desloca para a qualidade da gestão pública, um debate que permanece central no cenário brasileiro.
O documento observa que a percepção pública tende a se concentrar em problemas tangíveis. "Quando as pessoas não conseguem arcar com os custos de moradia e quando os jovens adultos se sentem excluídos da prosperidade, esses se tornam os problemas pelos quais os líderes são avaliados", conclui.
*Correio Braziliense