Sábado, 21 de fevereiro de 2026
Sábado, 21 de fevereiro de 2026
Especialistas explicam o que leva uma instituição à quebra, o que muda para clientes e se há risco de novos casos
A liquidação do Banco Pleno pelo Banco Central reacendeu o debate sobre a solidez de instituições financeiras de médio porte no país e trouxe à tona um tema pouco compreendido pelo público: como falhas de gestão, governança e controle de riscos podem levar um banco ao colapso — e o que isso significa, na prática, para clientes e investidores.
Na avaliação de especialistas ouvidos pelo R7, a quebra de uma instituição financeira raramente ocorre de forma repentina. Em geral, é resultado de uma sequência de decisões equivocadas que acabam mascarando problemas estruturais.
Segundo o advogado tributarista Luís Garcia, especialista em governança e compliance, o processo costuma envolver uma combinação de má gestão de risco, ativos superestimados e captação artificialmente sustentada.
“De forma objetiva, o que costuma dar errado é a soma de má gestão de risco, ativos superestimados e funding artificialmente sustentado. O problema geralmente começa com carteiras de crédito mal precificadas, concentradas ou de baixa qualidade”, explica.
De acordo com ele, para evitar reconhecer prejuízos, algumas instituições acabam adiando provisões ou mantendo ativos no balanço por valores acima da capacidade real de recuperação. Ao mesmo tempo, passam a oferecer taxas mais altas para atrair investidores, criando uma sensação de solidez que não se sustenta na prática.
“Cria-se a ilusão de solvência contábil, mas a insolvência econômica já está instalada”, afirma.
Falhas internas abrem caminho para crise
Garcia destaca que o papel da governança e do compliance é justamente evitar esse tipo de distorção — definindo limites, garantindo transparência e assegurando que as decisões sigam critérios técnicos e regulatórios.
Quando essas estruturas falham ou perdem independência, o risco aumenta significativamente. “Sem independência técnica, a instituição passa a operar com números que não refletem a realidade econômica. O colapso deixa de ser hipótese e passa a ser questão de tempo”, pontua.
Para ele, o caso do Banco Pleno deixa um alerta claro para instituições de médio porte: crescimento sem estrutura adequada de controle e capital é insustentável.
Caso não é exclusivo do Brasil
O especialista em direito bancário Marcelo Godke ressalta que situações como essa não são exclusividade do Brasil e já ocorreram em outros países, especialmente em momentos de estresse no sistema financeiro.
Ele cita como exemplo a crise das instituições conhecidas como savings & loans nos Estados Unidos, na década de 1980, que levou à insolvência de diversas instituições menores e exigiu medidas de resolução por parte das autoridades.
Ainda assim, o Brasil possui características próprias, como a atuação do regulador e mecanismos específicos para lidar com crises bancárias. “O Banco Central atua por meio de regimes administrativos de resolução, como intervenção e liquidação extrajudicial, para retirar a instituição do sistema de forma ordenada”, explica.
Há risco de ‘efeito dominó’?
A possibilidade de contágio no sistema financeiro — o chamado “efeito dominó” — existe, mas não é automática, segundo Godke. Ele aponta dois canais principais de risco: a perda de confiança dos investidores e a interconexão entre instituições financeiras.
“Pode haver uma corrida seletiva quando o público começa a suspeitar que outros bancos parecidos têm o mesmo problema”, observa.
Por outro lado, mecanismos como o FGC (Fundo Garantidor de Créditos) ajudam a conter o pânico, especialmente entre pequenos investidores. “Se o mercado acredita que o FGC paga bem e rápido, a chance de pânico diminui”, salienta.
O que acontece com o dinheiro dos clientes?
Na prática, a principal preocupação de quem tem recursos em um banco liquidado é saber se vai perder dinheiro. Segundo o especialista em reestruturação e falências Thiago Groppo Nunes, há mecanismos de proteção, mas com limites.
“No Brasil, o FGC assegura depósitos de até R$ 250 mil por CPF e por instituição financeira. Portanto, os clientes não perdem necessariamente tudo, mas aqueles com valores acima do limite podem estar em risco”, alerta.
Ele também ressalta que bancos não entram em recuperação judicial como empresas comuns. Nesses casos, a legislação prevê regimes específicos, como a liquidação extrajudicial, em que os ativos da instituição são vendidos para pagamento de credores.
Apesar da repercussão, os especialistas avaliam que o episódio não indica, necessariamente, uma fragilidade generalizada do sistema financeiro brasileiro. “O sistema financeiro brasileiro é bem sólido, mas é fundamental que os órgãos reguladores monitorem continuamente a saúde das instituições”, afirma Groppo.
Ainda assim, o caso acende um sinal de atenção, principalmente para investidores em busca de rentabilidade acima da média. Godke recomenda cautela diante de ofertas com taxas muito superiores às praticadas no mercado e reforça a importância de verificar se os investimentos estão dentro dos limites de cobertura do FGC.
*R7/Brasília