Domingo, 05 de abril de 2026
Domingo, 05 de abril de 2026
País importa cerca de 85% dos insumos usados no campo; analistas apontam impacto gradual sobre alimentos
A escalada das tensões no Oriente Médio voltou a acender o sinal de alerta no agronegócio brasileiro e no bolso do consumidor. Dependente de importações para cerca de 85% dos fertilizantes usados nas lavouras, o Brasil pode voltar a sentir os efeitos da instabilidade internacional sobre os custos de produção e, em consequência, sobre o preço dos alimentos.
O conflito interrompeu o envio de fertilizantes do Oriente Médio para grandes produtores de alimentos, como Índia, Tailândia e Brasil, o que pode elevar os preços nos supermercados.
O cenário é especialmente sensível porque o país é o quarto maior consumidor global de fertilizantes, mas tem produção nacional insuficiente para atender à demanda do agronegócio.
Segundo a Conab (Companhia Nacional de Abastecimento), em 2025, o Brasil importou cerca de 45,5 milhões de toneladas — recorde histórico —, enquanto a produção doméstica permaneceu abaixo de 8 milhões.
Para especialistas ouvidos pelo R7, o impacto da nova crise internacional sobre o Brasil tende a ocorrer de forma gradual, mas já acende o alerta para os próximos meses.
Efeito em cadeia
Para a economista Cristina Helena Pinto, professora e pesquisadora da PUC-SP, o impacto sobre a inflação dos alimentos não ocorre de forma instantânea, mas não demora a aparecer.
“Choques externos, como conflitos no Golfo de Ormuz, afetam primeiro os preços de energia, como petróleo e fretes, e, na sequência, os insumos agrícolas, como fertilizantes. No final dessa cadeia, está o preço dos alimentos”, detalha.
Isso acontece porque qualquer ameaça ao tráfego no Estreito de Ormuz — rota estratégica do comércio marítimo global — encarece fretes e seguros, efeito que chega diretamente aos portos brasileiros, como os de Santos e Paranaguá.
Segundo ela, o efeito ocorre em duas etapas: “Inicialmente, vemos uma leve alta, seguida de um novo patamar de preços. Custos logísticos geram oscilações, mas aumentos estruturais tendem a ser mais duradouros”, explica.
Na prática, isso significa que parte do alimento consumido hoje ainda foi produzida com insumos adquiridos antes da alta recente. O problema está no custo de reposição para os próximos ciclos agrícolas.
Impacto no bolso
O especialista em direito tributário e diretor da Mix Fiscal, Fabrício Tonegutti, avalia que os primeiros impactos devem aparecer nos produtos de ciclo mais curto, como feijão e algumas hortaliças.
“O efeito não costuma chegar de uma vez ao carrinho do consumidor. Estima-se que o repasse de choques nos fertilizantes para os alimentos pode levar de seis a 12 meses. [...] O feijão tem três safras por ano e ciclo médio de cerca de 90 dias. Se o custo do adubo sobe agora, o efeito pode começar a aparecer entre julho e setembro”, esclarece.
Já itens de cadeias mais longas, como arroz, milho e soja, devem sentir os efeitos mais à frente, entre o segundo semestre deste ano e o próximo ciclo agrícola.
Tonegutti afirma que o aumento nos custos de milho e soja pode, posteriormente, atingir proteínas como frango, ovos e carne suína, já que a ração animal depende diretamente desses grãos.
“Se a crise externa persistir por vários meses, atravessar a próxima janela de compra de fertilizantes e vier acompanhada de câmbio e frete mais caros, o efeito pode começar pontualmente ainda em 2026 e ganhar mais força no próximo ciclo agrícola”, prevê.
Mercado se estabilizou, mas segue vulnerável
Cristina Helena explica que o mercado brasileiro vinha se acomodando após o choque provocado pela guerra entre Rússia e Ucrânia, mas ainda em um patamar elevado. “Não era um cenário de plena estabilidade, mas também não de fragilidade imediata. Houve recomposição de estoques e diversificação de fornecedores, o que trouxe alguma acomodação.”
No entanto, essa estabilidade não é permanente. A economista argumenta que o Brasil tem vulnerabilidades estruturais importantes, como:
“Diferentemente de 2022, quando ainda enfrentávamos os efeitos da pandemia, hoje temos uma condição estrutural que não se resolve rapidamente. Isso mantém o país suscetível a novos choques externos”, ressalta.
Insegurança jurídica
Do ponto de vista jurídico, o advogado Leandro Marmo, especialista em direito do agronegócio, alerta que a dependência externa do Brasil é um dos principais fatores de insegurança para o setor.
Segundo ele, crises internacionais podem levar fornecedores a acionar cláusulas de “força maior” para justificar atrasos ou o descumprimento de contratos.
“O maior perigo está no repasse desse risco ao produtor rural. O agricultor que travou seu custo de produção não pode ser penalizado pela desorganização da cadeia global”, diz.
Em nota, o Ministério da Agricultura e Pecuária afirmou que acompanha “com atenção” os desdobramentos do cenário internacional e reconheceu reflexos nos custos e na dinâmica de oferta do mercado global de fertilizantes.
“É momento de cautela e de combate à especulação. A melhor forma de enfrentar a especulação é não comprar quando o preço está artificialmente elevado”, afirmou o ministro Carlos Fávaro.
*R7/Brasília