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Quinta-Feira, 27 de março de 2025

Economia

Inflação do ‘básico’ compromete cada vez mais orçamento das famílias no Brasil, diz estudo

Inflação do ‘básico’ compromete cada vez mais orçamento das famílias no Brasil, diz estudo

(Imagem: Divulgação/Prefeitura de Campos)

Quanto sobra na sua conta depois que você paga as contas básicas: aluguel, luz, água, comida, transporte…?

Um estudo realizado pela economista Isabela Tavares, da Tendências Consultoria, mostra que a renda disponível para o brasileiro depois de todos os gastos com itens essenciais diminuiu nos últimos anos.

O percentual foi de 42,45% em dezembro de 2023 para 41,87% no mesmo período do ano passado, na média de toda a população.

Dez anos antes, os brasileiros ainda podiam contar com 45,5% do seu orçamento depois dos gastos essenciais, o que demonstra que houve uma perda do poder de compra das famílias desde então.

Segundo o estudo, uma queda mais acentuada da renda disponível foi observada durante a pandemia de Covid-19 (40,39%), seguida de uma recuperação importante ao longo de 2022 e 2023. Em 2024, no entanto, os números voltaram a cair. (veja o gráfico abaixo)

Até o momento, em 2025, os dados apresentaram um leve avanço em relação aos meses anteriores, mas seguem em queda na comparação anual, o que ainda reflete um agravamento na situação financeira das famílias, explica Isabela Tavares.

A inflação do básico

 

O ano de 2024 foi marcado pelo recorde de pessoas ocupadas no Brasil e com uma taxa de desemprego que atingiu os níveis mais baixos da história, conforme o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE).

Nesse cenário, o rendimento dos trabalhadores cresceu, mas não foi suficiente para alavancar o poder de compra das famílias, já que a inflação, principalmente dos alimentos, pressionou o orçamento.

O estudo de Tavares demonstrou esse cenário ao apontar que a inflação dos itens básicos subiu 5,8%, acima do índice geral (4,8%), o que afeta principalmente as famílias de baixa renda e contribui para uma percepção negativa dos brasileiros sobre a economia.

“Quando a gente olha o IPCA geral (inflação oficial do país), às vezes a gente não vê uma diferença, um peso absurdo. A gente já viu no Brasil uma inflação bem mais alta, por isso a gente decidiu pegar uma cesta de consumo básico, com as maiores despesas das famílias, para ver o quanto ela está pesando no orçamento”, explica a economista.

Assim, a pesquisa levou em conta o peso que cada produto ou serviço costuma ter no orçamento das pessoas, de acordo com a Pesquisa de Orçamentos Familiares (POF), do IBGE, e a inflação deles mês a mês.

Para a população das classes D e E, o estudo mostrou que o gasto com itens essenciais comprometeu quase 80% da renda no fim do ano passado.
 

“As classes mais baixas gastam mais com itens essenciais porque a despesa delas está voltada para isso. Elas gastam menos com consumo de bens como vestuário, eletrodomésticos, serviços, viagens e até com investimentos”, explica Isabela.

“Apesar de um mercado de trabalho bom, crédito bom, a parte de preço impacta muito o consumo. É um dos fatores que mais impacta, então se você tem uma pressão nesses itens que são básicos, o que sobra para consumir além disso fica menor.”

Medidas para frear os preços

 

A ferramenta mais reconhecida para controlar a inflação é aumentar a taxa de juros do país. É o que tem feito o Banco Central em suas últimas reuniões, como forma de desestimular o consumo.

Nesta quarta-feira (19), o Comitê de Política Monetária (Copom) elevou a taxa básica de juros da economia, a Selic, de 13,25% para 14,25%, o maior patamar desde a crise do governo Dilma.

  •  A lógica é a seguinte: com os juros mais caros, os consumidores precisam reduzir empréstimos e compras a prazo. Ao diminuir o consumo, a demanda por produtos cai, o que ajuda a frear a inflação.

Outra medida anunciada pelo governo federal para tentar baratear os alimentos foi a de suspender o imposto de importação de alguns produtos. A ideia é que, sem a tarifa, os alimentos importados cheguem mais baratos ao país e pressionem os produtores locais a reduzirem seus preços, como uma forma de manter seus clientes.

No entanto, segundo especialistas ouvidos pelo g1as medidas devem ter um impacto pouco significativo na inflação, principalmente para a população de baixa renda. Entre os motivos para isso, está o fato de que a maioria dos produtos que tiveram a tarifa zerada não costumam ser muito importados pelo país.

Para o economista André Braz, coordenador dos Índices de Preços do FGV IBRE, é importante que o governo tenha um discurso mais assertivo sobre os gastos públicos neste momento, para aumentar a confiança dos investidores em colocar recursos no Brasil e reduzir a cotação do dólar.

“Sempre que o governo gasta, é como se ele estivesse aquecendo a economia, o que gera a inflação. Fazendo isso, ele está jogando contra o lado monetário, o Banco Central, que está tentando conter a inflação”, afirma.

  •  A alta do dólar afeta os preços no Brasil à medida em que encarece os produtos importados e estimula as exportações. Quanto mais o país exporta, menos sobra para o consumo interno.
 

Além disso, a pesquisadora Isabela Tavares destaca a necessidade de o país investir em produtividade, para conter a alta de preços aumentando a oferta a longo prazo.

Brasileiros têm cada vez menos renda disponível após pagar pelo básico, mostra estudo da Tendências Consultoria — Foto: g1