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Segunda-Feira, 16 de março de 2026

Economia

Juros podem cair: especialistas explicam como reorganizar investimentos com segurança

Expectativa de queda da taxa Selic pode reduzir ganhos na renda fixa e levar investidores a reavaliar a composição da carteira

Juros podem cair: especialistas explicam como reorganizar investimentos com segurança

Possível queda da Selic pode levar investidores a rever estratégias de aplicação do dinheiro (Imagem: Tomaz Silva/Agência Brasil - Arquivo)

A expectativa de que o Copom (Comitê de Política Monetária) do Banco Central inicie um ciclo de queda da taxa de juros pode levar investidores a rever a estratégia de aplicação do dinheiro. Com juros menores, investimentos atrelados ao CDI tendem a oferecer retornos mais baixos, o que pode estimular uma diversificação maior da carteira. Especialistas ouvidos pelo R7 afirmam, no entanto, que mudanças bruscas não são recomendadas e que ativos conservadores continuam tendo papel importante no portfólio.

Para a planejadora financeira Evelin Ceccato, a tendência em um cenário de queda da Selic é que aplicações pós-fixadas passem a render menos. Por isso, pode fazer sentido ampliar gradualmente a diversificação.

“Entre as alternativas, estão títulos prefixados, títulos indexados à inflação com prazos intermediários e, dependendo do perfil e conhecimento do investidor, uma parcela maior em renda variável”, sugere.

Segundo ela, o ajuste precisa ser feito com cautela. “Não se trata de abandonar a renda pós-fixada, mas de equilibrar a carteira para capturar oportunidades de rentabilidade sem comprometer a segurança e a liquidez necessárias ao planejamento financeiro de cada investidor.”

 

Tesouro Selic segue relevante

Mesmo em um ambiente de juros mais baixos, aplicações conservadoras continuam tendo espaço relevante na carteira. Um exemplo é o Tesouro Selic, que segue sendo indicado para reserva de emergência e objetivos de curto prazo.

“O Tesouro Selic continua tendo um papel muito importante na carteira, principalmente como reserva de liquidez. Mesmo em um ambiente de queda de juros, ele ainda oferece baixo risco, liquidez diária e previsibilidade”, observa Evelin.

O que pode ocorrer, segundo a planejadora, é uma redução relativa do peso desse tipo de investimento, à medida que o investidor passa a buscar alternativas com maior potencial de retorno no médio e no longo prazo.

Prefixados ou inflação?

Em ciclos de queda de juros, títulos prefixados podem chamar atenção por permitir que o investidor “trave” uma taxa considerada elevada em relação ao que pode ocorrer no futuro. “Se a trajetória de queda se confirmar, esses títulos tendem a se valorizar”, pontua Evelin.

Já os papéis atrelados à inflação, como o Tesouro IPCA+, costumam ser mais indicados para metas de longo prazo. “Eles oferecem proteção do poder de compra ao longo do tempo e podem fazer sentido para objetivos como aposentadoria, educação dos filhos ou preservação patrimonial”, exemplifica.

A especialista ressalta, no entanto, que a escolha depende do horizonte de investimento, da tolerância a oscilações e da estratégia de cada investidor. Também é importante compreender a chamada “marcação a mercado”, que pode gerar variações no preço desses títulos ao longo do tempo.

Mudança gradual na carteira

Para o especialista em investimentos Hulisses Dias, o primeiro impacto de uma eventual queda da Selic aparece justamente na redução do retorno esperado dos ativos mais conservadores.

“Do ponto de vista de construção de portfólio, o investidor passa a enfrentar um ambiente de menor retorno esperado nos ativos de baixíssimo risco, como Tesouro Selic, CDBs atrelados ao CDI e fundos DI”, afirma.

Segundo ele, isso normalmente desencadeia um processo de realocação gradual da carteira. “Essa transição precisa ser feita de forma racional e não baseada em ansiedade por rendimento”, salienta.

Ao avaliar alternativas dentro da renda fixa, Hulisses afirma que prefere priorizar títulos indexados à inflação. “Quando alguém compra um prefixado, está basicamente fazendo uma aposta implícita sobre inflação futura. Se a inflação subir a níveis dramáticos, o ganho real daquele título pode ser bem menor do que parecia no momento da compra”, constata.

Ele destaca que papéis atrelados à inflação ajudam a preservar o poder de compra ao longo do tempo, especialmente em um país com histórico de choques inflacionários. “Eliminar esse risco estrutural é mais importante do que tentar capturar alguns pontos percentuais adicionais em uma taxa prefixada”, observa.

Outros ativos ganham espaço

Historicamente, ciclos de queda de juros também tendem a beneficiar outros tipos de investimento, como ações e fundos imobiliários, além de títulos de prazo mais longo.

Ainda assim, Hulisses alerta que o mercado costuma se antecipar a esse tipo de movimento. “Quando os cortes de juros começam, boa parte dessa expectativa já está refletida nos preços [...]. Quando o investidor pessoa física decide fazer esse movimento, em geral o mercado já precificou boa parte da mudança de cenário”, afirma.

Erros comuns

Para Evelin Ceccato, um dos erros mais frequentes quando os juros começam a cair é migrar rapidamente toda a carteira para ativos mais arriscados. “Muitas vezes isso acontece sem considerar o horizonte de investimento ou o perfil de risco”, analisa.

Outro equívoco, segundo ela, é abandonar completamente aplicações conservadoras, que continuam tendo papel importante na liquidez e na estabilidade do portfólio. “Em geral, uma estratégia gradual e diversificada tende a ser mais eficiente do que mudanças bruscas”, comenta.

Foco no retorno real

Para quem se acostumou com retornos elevados da renda fixa nos últimos anos, Hulisses diz que a principal mudança é passar a olhar para o retorno real, ou seja, o ganho acima da inflação. “No Brasil, onde a inflação é um risco recorrente, o que realmente importa é o retorno líquido real ao longo do tempo”, reforça.

Ele também ressalta que, mesmo com eventuais cortes, o nível de juros no país ainda pode permanecer relativamente alto em comparação com padrões históricos. “Mais importante do que tentar antecipar movimentos da Selic é manter um portfólio bem diversificado e focado em preservar retorno real no longo prazo”, conclui.

*R7/Brasília