Terça-Feira, 24 de março de 2026
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Especialistas explicam motivos de o país ter antecipado o corte frente a outras economias e alertam para riscos ligados ao cenário externo
Sob o comando de Galípolo, o BC reduziu a taxa de juros em 0,25 ponto percentual (Imagem: Lula Marques/Agência Brasil - Arquivo)
O Brasil voltou a cortar a taxa básica de juros após dois anos, enquanto grandes economias ainda adotam cautela diante de um cenário internacional marcado por incertezas — como tensões geopolíticas e pressão sobre commodities. O movimento, liderado pelo Banco Central, levanta a pergunta: por que o país iniciou esse ciclo antes de outros e quais são os riscos dessa decisão?
Segundo especialistas ouvidos pelo R7, o aparente “descolamento” do Brasil em relação a economias como Estados Unidos e Europa tem explicações estruturais e não representa, necessariamente, uma aposta mais arriscada.
Para o economista Enrico Gazola, o principal fator está no ponto de partida. “O Brasil opera em um nível de juros nominal e real muito mais alto do que o das economias centrais. Isso significa que o Banco Central brasileiro ainda tem algum espaço técnico para iniciar uma flexibilização muito gradual sem que isso represente, por si só, uma política monetária frouxa”, avalia.
Na mesma linha, o economista Hugo Garbe afirma que o movimento atual é consequência do timing das decisões passadas. Segundo ele, o Brasil iniciou o ciclo de alta de juros ainda em 2021, antecipando-se às economias centrais.
“Como consequência, o Brasil atingiu mais cedo um patamar significativamente contracionista de juros reais, o que abriu espaço técnico para iniciar cortes antes sem, a priori, comprometer o processo de desinflação”, explica.
Além disso, fatores domésticos contribuíram para essa margem de manobra. A inflação perdeu força em relação ao pico, a atividade econômica mostra sinais mais moderados e os juros reais permanecem em níveis elevados na comparação internacional.
Para Gazola, esse conjunto permitiu ao Banco Central iniciar o ciclo com cautela. “Mesmo com o corte, o juro real do Brasil continua entre os mais altos do mundo. Isso ajuda a explicar por que o Copom conseguiu iniciar o ciclo sem transmitir, de saída, uma mensagem de leniência”, diz.
Cenário externo
Apesar do espaço interno, o ambiente internacional ainda é visto como o principal fator de risco para a continuidade da queda dos juros. Gazola avalia que o cenário externo pode frear o ritmo de cortes. “Hoje, o principal freio ao ciclo não parece ser doméstico, mas externo. A guerra envolvendo o Irã recolocou pressão sobre petróleo, energia e cadeias globais, e isso contamina expectativas de inflação no mundo inteiro”, afirma.
Garbe também destaca os efeitos ambíguos desse cenário. Se, por um lado, a alta de commodities pode favorecer países exportadores como o Brasil, por outro tende a pressionar a inflação doméstica, especialmente em itens como energia e alimentos.
Risco exige cautela
A divergência entre o Brasil e outras economias não implica, por si só, um risco imediato. Mas exige cuidado na condução da política monetária. “O problema não é simplesmente cortar antes dos EUA ou da Europa. O problema seria cortar num ritmo incompatível com o diferencial de juros, com o comportamento do câmbio e com a ancoragem das expectativas”, observa Gazola.
Ele alerta que uma eventual percepção de complacência pode pressionar o real e reacender a inflação. “Se o mercado interpretar que o Brasil está ficando complacente, isso pode encarecer importados e reacender a inflação”, ressalta.
Garbe reforça que o ponto central está na calibragem. “O ponto crítico não reside na decisão de cortar juros em si, mas na velocidade e na consistência do arcabouço macroeconômico que sustenta essa trajetória”, afirma.
Segundo ele, fatores como o controle fiscal e a manutenção das expectativas de inflação são decisivos para o sucesso do ciclo.
*R7/Brasília