Terça-Feira, 17 de março de 2026
Terça-Feira, 17 de março de 2026
Em carta endereçada a Trump e publicada nas redes sociais nesta terça-feira (17), Joseph Kent, diz o Irã não representa uma ameaça iminente aos EUA.
Fumaça sobe ao céu após explosões ouvidas em Manama, Bahrein, neste sábado (28), causada por um ataque do Irã (Imagem: Stringer/Reuters)
O diretor do Centro Nacional de Contraterrorismo dos Estados Unidos, Joseph Kent, renunciou nesta terça-feira (17) por se opor à guerra contra o Irã.
Em carta endereçada ao presidente Donald Trump, Kent diz que tomou a decisão de sair após muita reflexão. (Leia íntegra abaixo).
"Não posso, em sã consciência, apoiar a guerra em curso no Irã", afirmou.
O órgão integra o governo de Trump e faz parte do departamento de Inteligência Nacional do país, chefiado por Tulsi Gabbard.
Ainda segundo o ex-diretor, o Irã não representava uma ameaça iminente ao país. "Está claro que iniciamos esta guerra devido à pressão de Israel", continuou.
A carta também sustenta que houve uma campanha de desinformação por parte de autoridades israelenses e setores da mídia americana para convencer o governo de que uma ação militar resultaria em uma vitória rápida. Kent compara a situação ao contexto que levou à Guerra do Iraque, classificada por ele como “desastrosa”.
"Até junho de 2025, o senhor compreendia que as guerras no Oriente Médio eram uma armadilha que custou à América as preciosas vidas de nossos compatriotas e drenou a riqueza e a prosperidade de nossa nação", criticou Kent. "Em sua primeira administração, o senhor entendeu melhor do que qualquer presidente moderno como aplicar o poder militar de forma decisiva sem nos arrastar para guerras intermináveis".
Kent foi escolhido por Trump para ocupar o cargo em fevereiro de 2025. Na data, o presidente afirmou que a escolha seria certa porque a mulher de Kent foi morta "na luta contra o Estado Islâmico".
O ex-diretor menciona a ex-esposa na carta.
"Como veterano que foi enviado ao combate 11 vezes e como marido de uma “Gold Star” que perdeu minha amada esposa Shannon em uma guerra fabricada por Israel, não posso apoiar o envio da próxima geração para lutar e morrer em uma guerra que não traz benefício ao povo americano nem justifica o custo de vidas americanas", disse.
Kent não é o único ligado ao republicano a criticar a guerra. O ex-apresentador Tucker Carlson, apoiador de Trump, afirmou que “esta guerra é de Israel, não é dos Estados Unidos”.
Segundo a BBC, Carlson teria tentado demover o presidente da intervenção em reuniões privadas, alertando para os impactos dos conflitos armados sobre a liberdade e a sociedade. O podcaster Joe Rogan também se posicionou contra a ofensiva.
Pesquisas indicam que cerca de um em cada quatro eleitores republicanos discorda da atual política externa, com ceticismo mais acentuado entre aqueles que não se identificam diretamente com o movimento “MAGA” (Make América Great Again e Faça a América Grande De Novo, em tradução).
Entre os críticos está um grupo frequentemente chamado de “MAGA raiz”, formado em parte por veteranos das guerras do Iraque e do Afeganistão, que veem esses conflitos como infrutíferos diante de problemas internos, como o declínio industrial e social em suas comunidades.
A ala dissidente argumenta que o presidente estaria se afastando da promessa de campanha de priorizar a agenda “America First” e evitar novos envolvimentos militares no exterior. Entre os críticos está a ex-congressista Marjorie Taylor Greene, além de influenciadores conservadores, que afirmam que o apoio eleitoral foi dado à proposta de fortalecer o país internamente, e não a uma intervenção externa.
Analistas avaliam que o descontentamento pode impactar o desempenho republicano nas eleições de meio de mandato, sobretudo se houver aumento no número de baixas entre militares americanos ou se o conflito se prolongar, com efeitos sobre a economia e o preço do petróleo.
"Presidente Trump,
Após muita reflexão, decidi renunciar ao meu cargo como Diretor do Centro Nacional de Contraterrorismo, com efeito imediato.
Não posso, em sã consciência, apoiar a guerra em curso no Irã. O Irã não representava uma ameaça iminente ao nosso país, e está claro que iniciamos esta guerra devido à pressão de Israel e de seu poderoso lobby americano.
Apoio os valores e as políticas externas com as quais o senhor fez campanha em 2016, 2020 e 2024, e que implementou em seu primeiro mandato. Até junho de 2025, o senhor compreendia que as guerras no Oriente Médio eram uma armadilha que custou à América as preciosas vidas de nossos compatriotas e drenou a riqueza e a prosperidade de nossa nação.
Em sua primeira administração, o senhor entendeu melhor do que qualquer presidente moderno como aplicar o poder militar de forma decisiva sem nos arrastar para guerras intermináveis. O senhor demonstrou isso ao eliminar Qasam Solamani e ao derrotar o ISIS.
No início desta administração, altos funcionários israelenses e membros influentes da mídia americana promoveram uma campanha de desinformação que minou completamente sua plataforma 'America First' e incentivou sentimentos pró-guerra para encorajar um conflito com o Irã. Esse efeito de 'câmara de eco'' foi usado para levá-lo a acreditar que o Irã representava uma ameaça iminente aos Estados Unidos e que, se atacássemos imediatamente, haveria um caminho claro para uma vitória rápida. Isso era uma mentira e é a mesma tática que os israelenses usaram para nos arrastar para a desastrosa guerra do Iraque, que custou à nossa nação a vida de milhares de nossos melhores homens e mulheres. Não podemos cometer esse erro novamente.
Como veterano que foi enviado ao combate 11 vezes e como marido de uma “Gold Star” que perdeu minha amada esposa Shannon em uma guerra fabricada por Israel, não posso apoiar o envio da próxima geração para lutar e morrer em uma guerra que não traz benefício ao povo americano nem justifica o custo de vidas americanas.
Rezo para que o senhor reflita sobre o que estamos fazendo no Irã e por quem estamos fazendo isso. O momento para uma ação corajosa é agora. O senhor pode mudar de rumo e traçar um novo caminho para nossa nação, ou pode permitir que avancemos ainda mais rumo ao declínio e ao caos. A decisão está em suas mãos.
Foi uma honra servir em sua administração e servir à nossa grande nação".
*G1/São Paulo