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Sábado, 10 de janeiro de 2026

Internacional

Pedidos para Khamenei renunciar, repressão e mortes: entenda a crise no Irã

Regime dos aiatolás cortou a internet e isolou o Irã do resto do mundo na quinta (8) após atos se expandirem. Movimento agora pede que líder supremo deixe o poder. Presidente dos EUA ameaçou atacar Teerão caso agentes do estado matem manifestantes.

Pedidos para Khamenei renunciar, repressão e mortes: entenda a crise no Irã

Aiatolá Ali Khamenei, líder supremo do Irã. (Imagem: Gabinete do líder supremo do Irã/Wana via Reuters)

Desde o início dos protestos generalizados contra o regime do aiatolá Ali Khamenei no Irã, nos últimos dias de 2025, o movimento tem se expandindo tanto em escala quanto em violência — tornando-se a mais nova crise do governo de Teerã e envolvendo até os EUA.

Khamenei disse na sexta-feira (9) que seu governo "não vai recuar" diante dos protestos generalizados, que escalaram em proporção e violência nos últimos dias. Em pronunciamento transmitido pela TV estatal, o líder supremo iraniano chamou os manifestantes de “vândalos” e “sabotadores”.

“Na noite passada, em Teerã, um grupo de vândalos e arruaceiros veio e destruiu um prédio que pertencia ao Estado, ao próprio povo, apenas para agradar o presidente dos Estados Unidos”, disse Khamenei. Ele acusou os manifestantes “estarem destruindo as próprias ruas para agradar o presidente de outro país”, em referência a Trump. O líder iraniano disse para o líder norte-americano “cuidar do seu próprio país”.
 

Entenda abaixo os principais pontos da atual crise no Irã:

  • Motivações
 

Os protestos eclodiram no final de dezembro em Teerã e foram motivados por uma crise econômica —a moeda do país, o rial, perdeu metade de seu valor frente ao dólar no ano passado e a inflação ultrapassou os 40% em dezembro— no entanto, com o passar dos dias e com a repressão policial, os manifestantes passaram a exigir a renúncia de Khamenei.

  • Dimensão
 

As manifestações se tornaram as maiores demonstrações contra o governo iraniano desde 2009 e protestos já foram registrados em 25 das 31 províncias iranianas, segundo uma contagem da agência de notícias AFP.

  • Mortes
 

Até o momento, os protestos já deixaram mais de 60 mortos, incluindo membros das forças de segurança, segundo contagens de organizações de direitos humanos atuando no Irã. O número real de vítimas pode ser ainda maior porque há limitações na quantidade de informações que sai do país.

  • Advertência de Trump
 

Os protestos também geraram uma nova escalada nas já comprometidas tensões entre os EUA e o Irã. Trump disse que não tolerará mortes de manifestantes pelo regime Khamenei e disse que "atingirá muito duramente" o país caso isso aconteça. Nesta sexta, o líder iraniano chamou o presidente dos EUA de "arrogante" e disse que suas mãos “estão manchadas com o sangue de mais de mil iranianos”, em referência aos bombardeios feitos contra instalações nucleares em 2025.

  • Cortes da internet
 

Na quinta-feira, os protestos ganharam uma nova proporção após Khamenei ter ordenado um apagão da internet e da rede telefônica para tentar conter os manifestantes (leia mais abaixo). A quarta-feira foi considerada o "dia mais sangrento" dos protestos até o momento, em que foram registradas as mortes de 13 manifestantes.

O que está por trás da crise

 

Irã enfrenta dificuldades econômicas há anos, impactado principalmente pela reimposição de sanções pelos Estados Unidos. A medida foi adotada em 2018, quando o presidente Donald Trump deixou um acordo internacional sobre o programa nuclear iraniano costurado por seu antecessor, Barack Obama.

  • Ao retornar à Casa Branca, em janeiro de 2025, Trump retomou uma política de pressão máxima contra o Irã.
  • Em setembro, sanções também foram impostas pelas Nações Unidas, levando o governo iraniano a realizar reuniões para tentar evitar um colapso econômico.
  • A situação também foi agravada pelo conflito entre Irã e Israel, em junho. À época, forças israelenses e dos EUA realizaram ataques contra alvos ligados ao programa nuclear iraniano.
 

Em meio a esse cenário, a população passou a enfrentar inflação elevada, acima de 40% ao ano. O descontentamento também cresceu diante da desigualdade entre cidadãos comuns e a elite do país, além de denúncias de corrupção no governo.

Na segunda-feira (5), o presidente do Banco Central do Irã renunciou ao cargo. A mídia iraniana afirmou que políticas recentes de liberalização econômica pressionaram a moeda local, levando a uma rápida desvalorização.

Somente em 2025, o rial iraniano perdeu cerca de metade do valor em relação ao dólar e atingiu a mínima histórica neste mês.

O contexto econômico se soma a tensões políticas internas. Desde a Revolução Islâmica de 1979, o Irã é uma "república teocrática" — na prática, um regime ditatorial em que a autoridade máxima é o líder supremo, o aiatolá Ali Khamenei. Ele está no poder desde 1989.

O regime é alvo de críticas por violações de direitos humanos e restrições a liberdades sociais, especialmente entre os mais jovens, que encabeçaram vários protestos nos últimos anos.

Repressão e fala de Trump

 

Irã intensificou a repressão contra manifestantes contrários ao regime nesta quinta-feira (8), no momento em que a onda de protestos chega ao 12º dia no país.

Também nesta quinta, o presidente dos EUA, Donald Trump, mencionou a situação do país asiático.

"Deixei claro para eles que, se começarem a matar pessoas — o que tendem a fazer durante seus distúrbios, eles têm muitos distúrbios —, se fizerem isso, nós os atingiremos muito duramente", disse o presidente dos Estados Unidos durante uma entrevista ao apresentador de rádio conservador Hugh Hewitt.
 

De acordo com vídeos, cuja autenticidade foi verificada pela AFP, os manifestantes entoavam slogans como "é a batalha final, Pahlavi voltará", em alusão à dinastia derrubada pela Revolução Islâmica de 1979, ou "Seyyed Ali será destituído", em referência ao líder supremo Ali Khamenei.

Irã está "atualmente sujeito a um corte de internet em escala nacional", afirmou a ONG de vigilância de segurança cibernética Netblocks, com base em dados em tempo real.

O presidente do Irã, Masoud Pezeshkian, voltou a pedir nesta quinta-feira "a máxima moderação" frente aos manifestantes, bem como o "diálogo" e a escuta às "reivindicações do povo".
 

Quarta-feira sangrenta

 

Ainda não se sabe o número de mortos nos protestos. Segundo a ONG Iran Human Rights (IHR), com sede na Noruega, pelo menos 45 manifestantes, incluindo oito menores, morreram nos atos.

A quarta-feira (7) foi o dia mais sangrento da crise, com 13 mortos, de acordo com esta organização, que também indicou que "centenas" de pessoas ficaram feridas e que mais de 2 mil foram detidas.

As manifestações são as maiores no Irã desde as que ocorreram após a morte da jovem Mahsa Amini, em 2022 presa por violar as rígidas normas de vestuário para mulheres.

*G1