Terça-Feira, 14 de abril de 2026
Terça-Feira, 14 de abril de 2026
O Ministério Público do Estado de Alagoas (MPAL) acompanhou a chegada de seis Mutuns-de-Alagoas (três casais) à Reserva Particular do Patrimônio Natural (RPPN), área privada oficialmente destinada à conservação ambiental, da Usina Coruripe. A iniciativa integra o Programa de Ação Ministerial para a Conservação de Espécies Ameaçadas de Extinção, coordenado pelo MPAL. As aves chegaram de Minas Gerais no final da tarde desse dia 13 e, na manhã desta terça-feira (14), foram encaminhadas aos viveiros de aclimatação, onde passarão por um período de adaptação antes da soltura definitiva, prevista para maio.
O Programa reúne diversos parceiros institucionais do Ministério Público, como o Instituto do Meio Ambiente de Alagoas (IMA), o Batalhão de Polícia Ambiental (BPA), o Instituto para a Preservação da Mata Atlântica (IPMA), a Universidade de São Paulo (USP), além de representantes da iniciativa privada, a exemplo da Usina Coruripe. Nesta etapa, o objetivo é reverter o risco de extinção da espécie e promover o repovoamento das matas do sul do estado, especialmente naquele município.
De acordo com o promotor de Justiça Alberto Fonseca, idealizador da iniciativa dentro do programa ministerial, o momento representa a retomada de um ciclo construído ao longo de décadas. “O Ministério Público, por meio do Programa de Ação Ministerial para a Conservação de Espécies Ameaçadas de Extinção, acompanhou, junto com vários parceiros, a vinda de três casais de Mutum-de-Alagoas que, em breve, irão repovoar as matas do sul do estado. Trata-se do final de um ciclo onde retomamos a execução do Projeto de Reintrodução do Mutum-de-Alagoas, inserido nesse plano mais amplo de conservação”, destacou.
Ele relembra que o projeto teve início ainda no século passado, quando a espécie já era considerada extinta na natureza e contava com número extremamente reduzido de indivíduos em cativeiro. A partir disso, foram estruturadas ações integradas, como a criação de áreas protegidas, fortalecimento da fiscalização ambiental e desenvolvimento de estratégias de educação ambiental, criando as condições necessárias para o retorno da espécie ao seu habitat original.
Para a promotora de Justiça Lavínia Fragoso, o programa tem impacto que vai além da proteção de uma única espécie. “Quando trabalhamos com um plano dessa natureza, estamos protegendo toda a biodiversidade. Estamos falando de um esforço integrado que envolve fauna, flora, recursos hídricos e o equilíbrio dos ecossistemas. Precisamos transformar nossas matas, hoje silenciosas, em ambientes novamente vivos, pulsantes”, afirmou ela.
Parcerias
A participação da iniciativa privada também tem papel estratégico. Segundo o gerente de sustentabilidade corporativa da Usina Coruripe, Bertoldino Apolônio Teixeira Júnior, a ação demonstra a força da cooperação: “A reintrodução do mutum é um marco histórico. É um legado que estamos construindo juntos, unindo esforços para devolver à natureza uma espécie que desapareceu daqui”, disse.
Outro parceiro é o Instituto do Meio Ambiente (IMA), que atua oferecendo suporte técnico e garantindo o licenciamento necessário para a permanência dos animais na reserva, reforçando o compromisso dos órgãos ambientais com a recuperação da biodiversidade alagoana.
Responsável técnico pelo criatório conservacionista Crax, o médico veterinário Felipe Coutinho destacou os desafios científicos superados ao longo do processo. “A espécie passou por um gargalo genético severo, partindo de apenas cinco indivíduos. Foi necessário um manejo criterioso, com controle genético e cruzamentos planejados, para garantir variabilidade e viabilidade populacional. Esse trabalho permitiu a reprodução em escala e tornou possível a reintrodução”, explicou o profissional.
Ele também ressaltou a dimensão histórica da ação. “Trazer de volta uma espécie extinta na natureza há cerca de 40 anos é um marco para a conservação mundial. É o resultado de décadas de dedicação e cooperação entre instituições”, completou.
Adaptação
Após a chegada, os mutuns permanecerão cerca de 15 dias no viveiro de aclimatação, período necessário para descanso e adaptação ao ambiente. Em seguida, eles estarão aptos para a soltura definitiva, simbolizando o retorno de uma das espécies mais emblemáticas da Mata Atlântica ao território alagoano.
“A iniciativa representa não apenas a recuperação de uma espécie, mas o fortalecimento de uma política ambiental integrada, baseada na cooperação entre instituições e no compromisso com as futuras gerações”, frisou o promotor de Justiça Alberto Fonseca.