Domingo, 01 de março de 2026
Domingo, 01 de março de 2026
Apesar da expectativa de um encontro amistoso, acordos brasileiros com outros países tendem a gerar impasses com o líder dos EUA
Reunião está prevista para a segunda semana deste mês nos Estados Unidos (Imagem: Ricardo Stuckert / PR)
O encontro entre os presidentes Luiz Inácio Lula da Silva e Donald Trump, dos Estados Unidos, previsto para ocorrer neste mês, deve focar na relação bilateral entre os países, com uma atenção maior para a discussão sobre terras raras e crime organizado.
Devido à imprevisibilidade de Trump, especialistas entendem que o desenrolar da reunião depende da conjuntura do dia. Porém, algumas decisões comerciais do Brasil podem afetar a negociação amigável entre os países.
Para João Alfredo Lopes Nyegray, coordenador do Observatório de Negócios Internacionais da PUC-PR, questões como a estratégia explícita de diversificação comercial, a aceleração de acordos com outros parceiros para reduzir a dependência dos EUA e a ascensão do tema crime organizado ao nível presidencial podem influenciar a pauta do encontro.
“Entendo que o que pode afetar a ‘negociação amigável’ não é o Brasil ‘fazer algo errado’, mas o fato de Lula buscar simultaneamente autonomia estratégica e cooperação — e Trump costuma tolerar cooperação, mas punir sinais de autonomia quando isso ameaça sua narrativa de domínio”, avalia Nyegray.
A professora de relações internacionais da ESPM (Escola Superior de Propaganda e Marketing) Denilde Holzhacker entende que a decisão do Brasil de fechar um acordo com a Índia para a exploração de minerais críticos pode reverberar na discussão.
“Os Estados Unidos já haviam sinalizado que era interesse americano, então ao Brasil diversificar seus acordos nessa área, cria aí uma posição de menor capacidade de pressão americana sob essa agenda”, observa.
Críticas de Lula
Apesar da imprevisibilidade de Trump, a expectativa é de que a conversa se mantenha amigável, mesmo com as recentes críticas de Lula ao líder norte-americano. Para analistas ouvidos pelo R7, o rumo do diálogo pode tomar outra direção caso o Planalto se coloque frontalmente contrário às posições de Trump.
Nyegray entende que as críticas de Lula tendem a ser administráveis se ficarem no registro doméstico e se o governo brasileiro oferecer algo que seja atrativo para Trump como vitória: cooperação contra crime transnacional, ganhos em minerais críticos “ou uma moldura que permita ao americano dizer que ‘fez o Brasil colaborar’”.
Cautela no discurso
Recentemente, Lula criticou a forma como Trump usa as redes sociais. Segundo o petista, o republicano “quer governar o mundo” por plataformas. “Vocês já perceberam que o presidente Trump quer governar o mundo pelo Twitter? Todo dia ele fala uma coisa e você acha que é possível tratar o povo com respeito se não olhar no rosto?”, indagou.
“O risco real aparece se a crítica virar narrativa de imprensa na véspera do encontro e for percebida em Washington como tentativa de enquadrar Trump moralmente. Aí, mesmo que o diálogo permaneça, a dinâmica muda. Trump costuma punir “desrespeito” com imprevisibilidade — e imprevisibilidade, neste caso, significa comércio e tarifas. Ou seja, a probabilidade maior não é de a fala ‘estragar’ a conversa; é de estreitar a margem para Lula obter concessões discretas sem que Trump cobre contrapartidas públicas", conclui Nyegray.
Denilde Holzhacker ressalta que, mesmo com as críticas, Trump tem se referido a Lula de forma positiva. Ela relembra, ainda, o encontro do norte-americano com o presidente da Colômbia, Gustavo Francisco Petro, que fez críticas mais duras e teve uma reunião amigável com os EUA.
“Então, o Trump só se torna agressivo quando se colocam muito contrário às posições dele. Mas, se é de uma forma menos direta, deixando abertas possibilidades, ele tende a ser mais tranquilo dentro da tranquilidade que é do Trump. Tem que ser colocada uma ressalva. Tudo vai depender da conjuntura e do dia da reunião. Acho que não tem como prever qual vai ser a lógica sem antecipadamente”, observa a professora.
Além das tarifas
Apesar das novas taxas impostas por Trump, o foco da reunião deve se manter nos minerais críticos, crime organizado e nas investigações americanas sobre o governo brasileiro.
“A questão das tarifas vai ser tocada, provavelmente o governo brasileiro vai trazer, mas eu não acho que é esse o ponto da negociação em termos comerciais. As investigações sobre o governo brasileiro, que estão na seção 301, envolvem o Pix, envolvem acordos na área de acesso até o governo brasileiro. Tecnologia, redes sociais, as questões das Big Techs... A agenda de comércio está para além de tarifas e esse também é um ponto muito sensível para o Brasil”, sublinha Holzhacker.
*R7/Brasília