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Sexta-Feira, 04 de abril de 2025

Saúde

‘Quase aprovada’, vacina da dengue nacional deve chegar a sete em cada 10 para evitar surto

‘Quase aprovada’, vacina da dengue nacional deve chegar a sete em cada 10 para evitar surto

(Imagem: Divulgação/Instituto Butantan)

vacina contra a dengue do Instituto Butantan, um imunizante 100% nacional para combater uma das principais doenças endêmicas do Brasil, está prestes a ser aprovada pela Anvisa (Agência Nacional de Vigilância Sanitária).

Com o aval da agência, o imunizante poderá ser negociado com laboratórios, farmácias e clínicas privadas e chegar ao PNI (Programa Nacional de Imunizações), para que usuários do SUS sejam vacinados.

Com a iminência da aprovação e diante de outro surto no país neste ano, o diretor de Assuntos Regulatórios, Qualidade e Ensaios Clínicos da Fundação Butantan, Gustavo Mendes, deu detalhes do imunizante em uma entrevista exclusiva ao R7.

A vacina da dengue nacional é de dose única, mais barata que a concorrente, importada, que já é aplicada em crianças de 10 a 14 anos no SUS e tem 79,6% de eficácia.

Como a epidemia de dengue é sazonal e se associa às chuvas do começo do ano, o imunizante — quando disponível — precisará chegar ao braço de sete em cada dez brasileiros a fim de garantir que não haja uma explosão de casos de dengue em 2026 e nos anos seguintes.

Segundo Ministério da Saúde, até a noite de terça-feira (11), o Brasil somava 269.919 casos da doença. Destes, 303 pessoas morreram por suspeita da dengue. Já 85 brasileiros perderam a vida. Ontem, a Prefeitura de Sâo Paulo confirmou a primeira morte do ano — uma criança de 11 anos de idade, público-alvo da vacina disponível.

Mendes ainda falou sobre o desenvolvimento de uma vacina para a gripe aviária, que será testada em humanos, e de um imunizante contra a chikungunya, que deverá chegar às farmácias e postos de saúde nas próximas semanas.

Leia a entrevista com Gustavo Mendes:

Mendes: Vacina serve para os quatro tipos de dengue mesmo se você já tiver tidoDivulgação/Butantan

R7 – A vacina contra a dengue do Butantan, a Butantan-DV, já está em produção, e o Butantan deve fabricar 1 milhão de doses até o fim deste ano. A vacina protege contra quais tipos da dengue? Quem já teve dengue vai poder tomar também?

Gustavo Mendes — Essa vacina foi desenvolvida usando os quatro sorotipos, quatro tipos de vírus da dengue, que a gente sabe que existem. Esses tipos vão mudando de acordo com cada estação. Na atual, por exemplo, a gente viu que a dengue 3 é a uma que está surgindo e tendo um número de casos expressivo. Mas, em cada temporada, pode ser que um dos quatro tipos circule mais e outro, menos. Então, a gente fez uma vacina que tem o objetivo de proteger contra os quatro. É como se fossem quatro vacinas numa só.

A grande vantagem dessa vacina que a gente desenvolveu é ser dose única. Você toma uma vez só na vida e, como o caso da dengue não tem essa questão de variante como era o caso era a Covid, que, a cada ano ou a cada seis meses, surgia uma nova variante... no caso da dengue não acontece. Por isso que a gente consegue desenvolver uma vacina desse jeito.

Ela pode ser usada por quem já teve dengue, já que sabemos que existem os outros tipos que podem [infectar]. Às vezes, você teve dengue 1, mas pode ser contaminado por outros sorotipos. Aí, você vai ter a doença de novo. Nesse caso, como a vacina já é para os quatro, você se protege mesmo já tendo tido [dengue].

R7 — Então, a pessoa vai tomar a vacina uma vez na vida, assim como a da catapora?

Mendes – Exatamente. Igual à da febre amarela, agora, que também é uma vez só. E várias outras que tomamos uma vez só.

R7 – Os testes do Butantan indicaram uma eficácia de 79,6% da vacina da dengue. O que isso significa? Como a vacinação em massa, o que não aconteceu com o sarampo em 2022 e poliomielite em 2024, pode ajudar a erradicar a dengue?

Mendes: pólio e Zé Gotinha podem servir de exemplo para vacinação contra a dengueDivulgação/Instituto Butantan

Mendes – A gente calcula a eficácia da vacina comparando pessoas que se vacinaram versus pessoas que não se vacinaram e qual foi o percentual de proteção. Ou seja, quantos por cento das pessoas que se vacinaram reduziu-se o número de casos ou houve menos complicações com a exposição ao vírus. Então, a gente calcula esse percentual baseado numa análise populacional.

Para qualquer doença viral, a ideia é a gente ter uma cobertura vacinal mínima para garantir que a gente vai impedir a transmissão do vírus. No caso da dengue, a pessoa tem o vírus e ela é picada pelo Aedes aegypti, que leva o vírus de uma pessoa para a outra. Ele me pica, eu tô contaminado, e pica outra pessoa que vai se contaminar com o vírus. Então, se a gente consegue vacinar uma população grande, e com esses números que a gente tem, a gente sabe que conseguiria reduzir significativamente a circulação do vírus e aí impedir de o mosquito transmitir de um para o outro.

Com esse valor, a gente já viu na história uma possibilidade de erradicação. Quanto mais gente conseguirmos vacinar, menos circula o vírus, que deixa de estar presente. Aí, não temos mais casos.

R7 – Você pode citar uma doença que foi erradicada com esse raciocínio?

Mendes – A poliomielite que foi erradicada. Foi campanha... aliás, o Zé Gotinha nasceu com a vacina da pólio. Foi uma campanha histórica da década de 1980. O processo de erradicação da pólio começou ali em 1982 e aí foi até 1985. Foram anos de vacinação em massa. No caso da pólio, a preocupação é as crianças porque trata-se da paralisia infantil. Então, começou a ser obrigatório e, hoje, a gente quase não vê gente que não se vacinou contra a pólio. Então, é 100%.

Claro que agora, como o vírus está erradicado há algum tempo, a gente vê algumas pessoas, esporadicamente, pessoas negacionistas, que dizem que não vão vacinar o filho. Não vacina. Mesmo assim, ele não pega porque o vírus não está circulando. É porque já tem um tempo de erradicação. Mas vira e mexe aparecem suspeitas de casos de paralisia ou surgimento da pólio porque, se muita gente deixar de se vacinar, corre-se esse risco.

R7 – Existe um percentual mínimo para população ser vacinada de forma a erradicar o vírus da dengue?

Mendes – Isso é o que a gente chama de imunidade de rebanho. Você vacina uma quantidade mínima, que fica em torno de 70%, e o resto, os 30%, se beneficia do fato de que o vírus não está circulando mais tanto que não vai passar para eles.

R7 – Quantas doses o Butantan produziu até agora da vacina da dengue? Qual o investimento no imunizante?

Mendes – Para começar a produção da vacina, a gente faz uma série de preparações. Agora, estamos focados na produção do insumo ativo. Como é uma vacina de vírus atenuado, a gente precisa produzir esses vírus (1, 2, 3 e 4) para depois juntar todos num frasco e formular. Estamos nessa fase da produção dos insumos, então, a gente não produziu um lote ainda, que vai ser o lote comercial.

Mas a gente já começou essa preparação porque tem que comprar material, tem que preparar fábrica, tem que deixar tudo calibrado. Então, começamos essas etapas, que são de produção, antes mesmo da decisão da agência [Anvisa]. Então, não temos número de lotes produzidos efetivamente, mas a gente espera que tenha até a decisão da agência. Para esse ano, é essa expectativa: pouco mais de 1 milhão de doses.

De investimento, não sei esse número. Mas são dez anos de desenvolvimento dessa vacina.

R7 – Quantos milhões de doses o Butantan vai ser capaz de produzir por ano depois que a fábrica estiver totalmente adaptada?

Mendes – Serão 100 milhões até 2027. A gente está fazendo uma série de ajustes para poder aumentar a escala de produção, o que demanda uma série de testes, contratações, adaptações, algumas medidas que precisam ser tomadas. É por isso que, para esse ano, o número é menor [previsão de 1 milhão de doses], mas se espera que, nos próximos anos de 2026 e 2027, fique aí em torno de 50 milhões de doses por ano.

Butantan deve produzir 50 milhões de doses por ano da vacina da dengue a partir de 2026Divulgação/Butantan

R7 – Agora, a bola está com a Anvisa para a aprovação da vacina da dengue. Pelo tempo que você passou lá, 19 anos, existe risco de a Anvisa vetar mesmo com o início da produção?

Mendes – Acho que não, porque a gente já vem conversando com a Anvisa desde abril [de 2024]. Esse foi um processo de submissão diferenciado que a gente chama de submissão contínua, que é quando a gente vai enviando uma série de informações, pacotes e dados à medida que são gerados. Então, a Anvisa já os conhece.

Acho que esse trâmite final é só mesmo para os alinhamentos finais dos ajustes. Talvez, a gente tenha algum compromisso de monitorar a vacina, algum estudo adicional, mas não acho que seja algo que impeça a aprovação. Isso, é claro, é uma decisão da agência, é só uma expectativa, não dá para cravar. É só um otimismo mesmo.

R7 – A ministra da Saúde, Nísia Trindade, declarou que não há previsão de vacinação em massa ainda em 2025 mesmo com o sucesso e a aprovação pela Anvisa. Quando a primeira vacina vai chegar no braço da população?

Mendes – Temos que lembrar, depois da aprovação da Anvisa, ainda tem duas etapas. Uma é a definição de preço, preço máximo a ser fornecido. É uma câmara interministerial que define o preço dos medicamentos e dos produtos. Vi uma notícia recente de uma terapia que foi aprovada e vai custar R$ 13 milhões. É essa câmara de medicamentos que define isso baseada nos estudos, no custo de desenvolvimento. Quando definir esse valor, a gente tem uma outra etapa, que é a incorporação no PNI [Programa Nacional de Imunizações], que vai tomar uma decisão. Vai incorporar essa vacina ou não.

Já houve várias situações de vacinas que o PNI não incorporou pelo preço. No nosso caso, claro que a gente tem muita expectativa de que seja incorporada porque a gente já tem uma vacina que atua, que são duas doses, mais cara, e a nossa vai ser mais barata.

Temos tudo favorável, mas tem essas etapas a serem cumpridas, e são prazos que não dependem da gente. A Anvisa e a câmara de ministérios é que precisam definir. Então, a nossa esperança é que a gente consiga ter, ainda esse ano, uma aplicação. Mas tem esses prazos e trâmites que precisam ser acompanhados.

R7 – Então, a gente está falando da prevenção dos casos para o ano que vem?

Mendes – Sim, porque a gente sabe que os casos são sazonais. São muito relacionados ao período do começo do ano, do aumento das chuvas, mosquitos, água parada... então, provavelmente, o benefício mesmo da vacinação [contra a dengue] só no ano que vem.

Surtos recorrentes de dengue desafiam as autoridades brasileiras todos os anosLUCIANO MARTINS/ATO PRESS/ESTADÃO CONTEÚDO – 11.01.2025

R7 – Qual o risco de reação da vacina contra a dengue do Butantan?

Mendes – Em torno de 0,1%. É uma vacina bastante segura. [São] reações que não são consideradas graves. Tem um perfil de segurança bom.

R7 – Mudando o foco da vacina para a prevenção da Covid, sobre a ButanVac, que despertou, na população brasileira, a esperança de ter um imunizante nacional e mais barato. A que você atribui a desistência da ButanVac? Faltou gente para testar já que parte da população já estava vacinada com a primeira dose de imunizante importado?

Mendes – O desenvolvimento de vacinas e medicamentos apresenta um certo risco, o que se vê em várias situações. Nem todas as empresas que quiseram desenvolver vacinas Covid conseguiram. E isso não necessariamente é resultado de falta de investimento ou mão de obra ou recrutamento. Às vezes, é pela própria tecnologia [usada na vacina], pela capacidade de atualização.

No caso da Covid, as tecnologias que mais compensam são aquelas que conseguem se adaptar rapidamente frente às variantes. Então, a tecnologia da ButanVac, junto aos resultados que observamos, levaram a gente a decidir que o desenvolvimento dessa tecnologia não valeria mais a pena.

Mas o Butantan pretende investir de outras formas em Covid. A gente sabe que ainda é uma doença que mata. É aquela questão: por mais que mate ou que afete poucas pessoas, se existe uma vacina que pode prevenir, a gente tem que oferecer. As pessoas podem pensar: ‘antes, a Covid matava 4.000 por dia e agora não precisa mais se vacinar’. A realidade não é essa. Se uma pessoa morre e existe uma vacina que possa prevenir, por que não se vacinar? Você poderia evitar essa morte. É isso o que temos sempre em mente.

O Butantan pretende continuar. Vale para uma morte ou mesmo para um caso grave... você pode ficar imobilizado, prostrado, doente, incapacitado, sendo que já tem vacina. Se tomasse a vacina, você não passaria por isso.

Vacina contra chikungunya está a caminho, e Butantan testa para a zika e gripe aviáriaDivulgação/Butantan

R7 – Em 2013, o então diretor do Butantan, Jorge Elias Kalil Filho, em uma audiência pública na Câmara dos Deputados, disse que o Butantan poderia desenvolver uma vacina contra a gripe aviária, no caso o vírus H7N9. Agora, há um novo vírus que causa a gripe aviária, o H5N1. Se eclodir a gripe aviária em humanos, o Butantan tem condições de desenvolver uma vacina em tempo recorde?

Mendes – Já está com a Anvisa um pedido para iniciar os estudos em humanos de uma proposta para a gripe aviária. Essa variação de H5, H7, é uma adaptação muito simples de fazer. Não seria algo que tem que desenvolver do zero, uma nova vacina. É relativamente simples, assim como a gente faz todo ano para a gripe, influenza sazonal.

A gente apresentou para a Anvisa um pedido de estudo clínico. Vamos começar assim que a Anvisa autorizar. Já estamos com centros recrutadores preparados. Assim que a gente tiver os resultados desse estudo, estaremos preparados para fornecer essas doses.

R7 – Em outras palavras, ensaio clínico é aplicar na população e testar o imunizante?

Mendes – Sim.

R7 – Além de gripe aviária, tem algum outro ensaio clínico do Butantan que você possa compartilhar? Algo novo que está previsto para os próximos anos?

Mendes – Na verdade, para os próximos dias ou para as próximas semanas, a gente espera, tem a vacina da chikungunya. A gente sabe que é uma questão crítica, e é uma vacina que está pronta e a gente já submeteu, está tudo revisado. Chikungunya é uma doença que é muito complicada. Nesse final de ano, eu estava em Mato Grosso com alguns familiares e vi surtos, pessoas sem conseguir andar porque chikungunya é uma doença que persiste por muitos anos.

A gente também está com expectativa de alguns projetos que mandou para o Ministério da Saúde, de transferência de tecnologia para o Brasil. Então, produtos que são estratégicos. Como não têm aprovação, não dá para revelar. Mas a gente participou dos editais do ministério para transferir para tecnologia para o Brasil de vacinas e anticorpos que são estratégicos para o SUS. Então, até saírem os resultados em breve dos projetos contemplados, vamos participar ativamente desses.

R7 – Essa vacina da chikungunya também protege contra o zika vírus?

Mendes – Não. Zika também está no nosso olhar, temos uma franquia de arboviroses aqui, que inclui zika, como perspectiva, mas que não está tão perto [de ser desenvolvida]. A gente quer fazer um estudo de coadministração, que é administrar a vacina da chikungunya e da dengue juntas para ver se não tem nenhum problema ou reação. Esperamos ter esses resultados para oferecer essa possibilidade.

R7 – Existem vacinas que o Butantan desenvolve, e o brasileiro não faz ideia?

Mendes – Não sei se não faz ideia, mas nosso carro-chefe é a vacina da gripe, que o Butantan todo ano oferece e que a gente começou a campanha agora. [...] São os primeiros lotes produzidos da nova versão da vacina da gripe. Todo ano, ela muda. Pessoal fala: ‘Tomei o ano passado’. Mas nesse ano é uma nova dose. É o grande destaque. E o objetivo é vacinar o maior número de pessoas, por isso fazemos uma campanha tão intensa, principalmente antes do inverno, período mais crítico para a gripe. O Butantan também oferece hepatite A, HPV... algumas totalmente produzidas aqui e outras em processo de transferência.

R7 — Você ficou famoso nas entrevistas da Anvisa, onde ficou por quase 20 anos, durante a pandemia da Covid-19. Gostaria de saber se você tem planos para ingressar na política.

Mendes – Não. Nunca digo nunca, mas não tenho nenhum interesse.

R7 — Por que você decidiu deixar a Anvisa? Você foi estudar fora do país?

Mendes — Fui trabalhar, na verdade. Em 2022, já estava uma situação mais tranquila em relação à vacina [contra a Covid-19], liberação, aquela pressão toda. Já tinha um percentual vacinado bom, já tínhamos um portfólio de vacinas bastante intenso. Então, estava bem estruturado. Surgiu a oportunidade de eu ser cedido para IVI (International Vaccine Institute), e ali na Coreia a tecnologia de produção e desenvolvimento é impressionante. Lá, é um organismo internacional, então pude trabalhar com diferentes países.

Ainda tenho uma certa conexão com eles porque oferecem um treinamento global de vacinas e ainda sou professor lá. Aí, fiquei um ano lá e, quando mudou a diretoria do Butantan, surgiu a oportunidade de eu vir para cá.

O Esper [Kallás], que é o diretor-presidente e eu já conhecia dos meios acadêmicos e científicos, me convidou e eu assumi a diretoria de qualidade regulatória e ensaios clínicos. Estou licenciado da Anvisa, ainda mantenho o vínculo, e agora licenciado aqui para o Butantan. Acho que está sendo uma experiência muito boa. Estou do outro lado, então, agora eu ajudo a responder como uma empresa. É um desafio interessante.

*R7

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