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Quinta-Feira, 09 de abril de 2026

Economia

Com Campos Neto, BC enviou 31 notificações de irregularidades ao Master

Notificações foram enviadas entre 2022 e 2024, segundo relatório da Diretoria de Fiscalização. Banco só foi liquidado em 2025

Com Campos Neto, BC enviou 31 notificações de irregularidades ao Master

Em depoimento na CPI do Crime Organizado, Galípolo defendeu a condução do processo do Master pelo seu antecessor no Banco Central (Imagem: Carlos Vieira/CB/D.A Press)

As irregularidades praticadas pelo Conglomerado Prudencial Master, que tinha o Banco Master como empresa líder, e o agravamento da crise de liquidez da instituição financeira estavam no radar do Banco Central desde 2022, quando a Diretoria de Fiscalização da autoridade monetária identificou o descumprimento sistemático das normas que regem o Sistema Financeiro Nacional. Entre 2022 e 2024, último ano da gestão de Roberto Campos Neto como presidente do BC, a autoridade monetária encaminhou 31 ofícios ao Master com "determinações de ajustes de provisões, reforço de capital e melhoria das práticas de gestão", segundo relatório da Diretoria de Fiscalização ao qual o Correio teve acesso. Desses ofícios, 18 foram expedidos entre 2022 e 2023. Em 2024, último ano de Campos Neto no cargo, o Master foi notificado 13 vezes.

 

Boa parte dessas notificações tratava da "reiterada incapacidade do Conglomerado de atender às exigibilidades de recolhimento compulsório sobre depósitos a prazo" — regra que obriga os bancos a depositar no BC, de forma obrigatória, uma fatia dos depósitos dos clientes. Para o BC, o descumprimento da norma foi um "indicativo eloquente" da incapacidade do Master de honrar seus compromissos.

Embora o atual presidente da autarquia, Gabriel Galípolo tenha defendido, ontem, em depoimento no Senado, a atuação de Campos Neto no processo (Leia ao lado), a liquidação extrajudicial do conglomerado, só começou a ser decretada pelo Banco Central em novembro de 2025, com Galípolo no comando. Mesmo assim, o grupo foi liquidado em fatias, começando pelo Master, que tinha 5,3 milhões de clientes apenas na carteira de crédito consignado. O BC avaliava que, pelo menos, duas empresas ligadas ao Prudencial Master poderiam ser vendidas, preservando os interesses dos clientes, em uma solução de mercado: a Will Financeira e o Banco Master Múltiplo, que entraram em Regime de Administração Especial Temporária (Raet). Como não houve avanço na tentativa de repassar essas empresas a outras instituições financeiras, ambas também foram liquidadas extrajudicialmente, em janeiro e em março deste ano, respectivamente.

BRB

O anúncio de um acordo com o Banco de Brasília (BRB) para aquisição de participação no capital do Master, que poderia ajudar a melhorar o desequilíbrio financeiro da instituição, em vez de tranquilizar o mercado, piorou a situação. Segundo o relatório da Diretoria de Fiscalização, que fundamentou o voto pela liquidação extrajudicial do Master, após o anúncio do fato relevante, em 28 de março do ano passado, em que o banco público do DF formalizou o interesse em se associar ao banco de Daniel Vorcaro, a situação do Master só se agravou.

O BC identificou "aumento significativo de negociações dos CDBs do Conglomerado no mercado secundário", quando muitos investidores passaram a vender seus títulos com deságio, "restringindo ainda mais a capacidade de colocação de novos CDBs no mercado primário e, consequentemente, dificultando a rolagem do passivo do grupo". Nessa época, o Master já estava proibido de vender CDBs com rendimento acima de 100% do CDI (taxa interbancária que segue a variação da Selic). Nos bons tempos de captação, o banco chegou a oferecer 140% do CDI como remuneração de seus CDBs, sem conseguir alavancar recursos para honrar os compromissos.

A operação BRB-Master foi vetada pelo BC em setembro de 2025, após a fiscalização do BC constatar "indícios de fatos que configuram crime contra o Sistema Financeiro Nacional", como a cessão ao BRB de créditos inexistentes. Esses "fatos" foram informados ao Ministério Público Federal em julho de 2025.

O Banco Central reconhece que, ao longo dos últimos quatro anos, "sempre vislumbrou" a possibilidade de uma "solução de mercado" para a crise do Master, que gerasse "menor custo para a sociedade, quando comparada a medidas de saída forçada impostas pelo regulador" — intervenção ou liquidação extrajudicial.

No caso da Will Financeira, o BC esperava que a empresa fosse vendida para preservar o interesse dos clientes — em sua maioria, das classes C, D e E, com saldo médio de apenas R$ 300,00. O principal mercado da financeira estava em cidades do interior do Nordeste, com menos de 100 mil habitantes. Em resposta a questionamentos feitos pelo Tribunal de Contas da União (TCU), o BC informou, em dezembro do ano passado, que a liquidação extrajudicial da Will "traria efeitos sociais extremamente adversos e dificilmente reversíveis".

*Correio Braziliense