Aguarde. Carregando informações.
MENU

Quinta-Feira, 09 de abril de 2026

Entretenimento

Luana Piovani escreve biografia que não poupará ninguém

Atriz repassa trajetória, conta que virou uma 'evangélica macumbeira' e afirma que posicionamento político fez sumir convites de trabalho em Portugal: 'Mas estou mais interessada em fazer mulheres despertarem do que em protagonista de série. Enquanto as contas estão pagas, ok'

Luana Piovani escreve biografia que não poupará ninguém

Luana Piovani (Imagem: Divulgação / Studio Faya)

Tem um meme que diz: levei 30 anos para descobrir que adoro a Luana Piovani. A atriz confirma que muita gente que antes implicava passou a gostar dela recentemente. Enxerga a treta com Neymar, a quem, em 2024, acusou de apoiar a chamada “PEC das praias”, como ponto de virada.

Se desde os 16 anos, quando surgiu na minissérie “Sex appeal”, ela fala o que quer na lata, imagina aos 50? A atriz, que completa meio século de vida em agosto e 35 anos de carreira neste 2026, diz que não vai poupar ninguém na autobiografia que escreve. Ela refletiu sobre sua trajetória no “Conversa vai, conversa vem”, videocast do GLOBO que vai ao ar nesta quinta-feira (8), 18h, no YouTube e no Spotify. Leia trecho a seguir:

Luana Piovani no estúdio do Jornal OGLOBO, no 'Conversa vai, conversa vem' — Foto: Ana Branco
Luana Piovani no estúdio do Jornal OGLOBO, no 'Conversa vai, conversa vem' — Foto: Ana Branco

Ficou emocionada com a apresentação que fiz sobre você no "Conversa...". No fundo, é fofa?

Pois é ... Vi um meme ótimo que diz: 'Não vem dizer que a pessoa no fundo no fundo é legal porque a gente não está procurando petróleo no fundo de ninguém' (risos).. Mas é isso: estou fazendo 35 anos de carreira e 50 de idade. Não tem como não parar e olhar. Ainda mais eu, virginiana e com muita psicanálise nessa vida... escutar você me emocionou.

Falando em meme, o que acha daquele que diz: 'levei 30 anos para descobrir que adoro a Luana Piovani...'

Sempre fui a prepotente, arrogante, barraqueira, polêmica. Mas, hoje, com a ampliação da consciência, perceberam que estava sempre brigando por nós, pela sociedade, pelo coletivo. E, agora, começaram a gostar de mim. Mas não mudei minhas pautas. Com o processo do Neymar ampliou. Quando fica nichado na mulher, vira clube da Luluzinha, "ah, elas se protegem". A coisa da praia pegou a população. Foi o povo em geral que se viu enganado ultrajado.

   

E aí entra o que você falou... Pessoas escrevem para mim dizendo: "Luana já te odiei tanto, mas hoje te amo. Demorei anos pra te entender, agora você é minha loba, minha diva. Se te julguei, peço desculpas". A maturidade demora a chegar. O nome disso é lucidez. Sou muito lúcida e entenderam que sou ética. Todas as vezes que acharam que eu estava mentindo, viram que era verdade.

Luana Piovani — Foto: Ana Branco
Luana Piovani — Foto: Ana Branco

Quando, por exemplo?

A história do Caetano (Veloso), da música que fez pra mim, disse que não fez pra depois falar que fez... A agressão (quando foi vítima de violência doméstica por parte de Dado Dolabella)... Nunca inventei nada.

Você e Caetano ficaram bem?

A gente não se encontra. Mas continuo escutando a obra dele. Óbvio que não ia perder a oportunidade de colocar isso no meu stand-up ("Cantos da Lua"). Digo: "Gente, ele fez música pra 12 mulheres. Mas sou a única que ele fez pra não fazer pra depois ter feito. Ninguém tem a história que eu tenho".

Nesse espetáculo, você conta a sua vida. Se somos tantas dentro da gente, que Luana o espectador conhece nesse espetáculo?

A que eles não têm ideia que exista. Glamourizam pessoas famosas, bonitas. Principalmente, com as redes sociais, que vendem mentiras que o povo compra e dá like. Entro linda e maravilhosa, boto cabelo, unha, cílios, realizo a fantasia deles da Luana Piovani. Minto tudo para todo mundo entender que a perfeição é uma mentira. E aí só conto meus tombos. Para entenderem que todo mundo cai e é inseguro. Não adianta ter dinheiro, que não cumpre o que é essencial na vida. Pensava: não posso pegar essa potência que Deus me deu e ficar enchendo a burra de dinheiro vendendo sabão em pó. Achava que podia mudar a vida das pessoas.

   

Nos bastidores, aqui, me contou que contou que virou evangélica macumbeira...

Acabei de me tornar macumbeira e estou muito feliz e orgulhosa. Sou fofa de nascida, mas de criada sou Iansã (risos). Levei anos tendo curiosidade, sem saber se era a hora e se eu realmente queria. Mas chega num momento da vida... 50 anos, né? Sou virginiana, adoro ciclos terminados. Observo meu entorno: sou brasileira, tudo que é de matriz africana me interessa, é meu povo, minha música, meu DNA. Fui crescendo e virando cada vez mais cidadã. Existir é político e eu fui vendo que está tudo errado. Fui para Salvador, era a hora de eu ir num terreiro e me aproximar de algo com que me identifico tanto. Para mim, a espiritualidade é lógica pelo viés do bem, do amor, da natureza, a grande deusa...

E você trazia religião evangélica da sua avó. Há preconceito contra evangélico? Tem fundamento?

Como não tem fundamento? Minha avó, que me levou para a Igreja Adventista do Último Dia, deve estar dando volta no caixão. Li a Bíblia, fui para Israel, sempre gostei muito da cultura judaica por conta do Velho Testamento. Religião é reverenciar e respeitar a natureza, os seres humanos, a diversidade, pregar o amor. Deus é amor. Seja os diferentes nomes que possa ter. O evangélico de hoje é o que há de pior no ser humano. Virou o protótipo de um ser desprezível. De alguém que não respeita a diferença, um viés diferente do mesmo amor. Virou uma indústria política. Minha avó deve estar chorando lágrimas de sangue. E também orgulhosa de mim, que tenho senso crítico e estou vendo que não é nada do que aprendi com ela. Sou evangélica e tenho lugar de fala para dizer: a maioria dos evangélicos hoje é uma raça que pelo amor de Deus! Achou ruim? Come menos! Caguei para vocês!

Está de boa com os 50? Vi você dizer que hoje chega nos lugares e não causa tanto impacto quanto antigamente...

Não vou falar que é fácil, mas com a vida o jeito que está, é o menor dos problemas não chamar a atenção de héteros quando se entra nos lugares. Até porque, os héteros não existem, e os que existem continuam decepcionando. A percepção do mundo em relação a nós muda dos 40 para os 50. Depois da separação e alguns namoros, voltei para o mercado e senti que o olho é diferente. Não estou falando da Luana famosa, mas da minha figura. As pessoas olham e pensam: "Que moça bonita, elegante, que figura interessante". Só que quando você é jovem, tem uma faísca que acontece quando o olho te acha. Hoje não tem a faísca, é só a constatação: "Ela é bonita". Organizo isso dentro de mim porque sou analisada. Ontem, fui fazer uma foto para mostrar minhas pulseiras e vi minha mão cheia de manchas e ruguinhas. Falei: "Caralho!". Mas sinto isso, e meu alarme, na hora, fala: "Opa, isso é armadilha, não vá por esse caminho". Aí eu volto, vejo que estou viva. Porque para não estar com a mão assim. tinha que ter morrido com 30.

O que te fez mudar da mulher que reclamava de 'não poder postar foto bonita de biquíni porque o Brasil te obrigava a se posicionar" à que hoje levanta tantas bandeiras?

Sempre falei sobre o que achava injusto. Fui para Portugal, as pessoas não pararam de me ouvir, mas pararam de me ver fisicamente. Quando volto, elas me amam. Não fui eu, mas a coisa ficou tão ruim que todo mundo teve que despertar. Todo mundo, não... ainda tem 50% do Brasil que não se deu conta. Como falei, o processo de Neymar me trouxe a coisa masculina. Sou defensora dos direitos da mulher. E o homem não quer perder o lugar de privilégio de quem é servido. Mas não se pode tocar no futebol, na cerveja e na praia do brasileiro. Senti que sacaram que, apesar de ele ser considerado Deus, estava fazendo uma coisa escrota, que todos íamos perder. Viram que eu estava gritando por algo que faz sentido. Porque mulher é sempre louca, histérica, né? Desde que o mundo é mundo, são as mulheres que gritam.

Defende pautas que são consideradas de esquerda. De que espectro político se enxerga?

Sou totalmente de esquerda, meus princípios... Não posso achar que o dinheiro está acima de tudo. Gente, sou brasileira, tenho olhos e coração. Não é possível que alguém acha certo ter bilionários e, ao mesmo tempo, gente com insegurança alimentar. É difícil até de dormir!

Foi morar em Portugal em busca de uma vida mais digna e com menos violência, como explicou, mas a xenofobia lá, principalmente, contras brasileiros, não está fácil...

O partido Chega! tem apoio dos brasileiros. Alguém me explica como um brasileiro que mora em Portugal pode ser favor do Chega!, que está querendo mandar a imigração embora? Como preto é de direita? Mulher, pobre? Não devem ter entendido. Alguém tem que explicar que o que a direita quer é que o mundo seja branco, tenha um metro e noventa e olhos azuis...

A violência doméstica em Portugal come solta e lá nem existe a palavra feminicídio...

Estou batalhando. Com meu Instagram, a parceria com uma ativista e a colônia brasileira, conseguimos 200 mil assinaturas para levar o feminicídio para aprovarem no Congresso. Cheguei lá com tapete vermelho estendido. Com dois anos, saquei o que era o Portugal, e ampliei meu leque de ativismo. E estou o que? Falando mal de Portugal. Eles se ressentiram e tem um ano e meio que não recebo um convite de trabalho lá. Mas estou mais interessada em fazer com que as mulheres despertem do que ficar fazendo protagonista de série. Enquanto as minhas contas estão pagas, está tudo ok.

Qual a importância do projeto de lei que o Senado aprovou, no Brasil, que criminalizar a misoginia, equiparando com o crime de racismo? E como vê mulheres recorrendo à biologia para criticar Erika Hilton na presidência da Comissão de Defesa dos Direitos da Mulher na Câmara dos Deputados?

Me dá vontade de deitar nesse chão aqui... uma canseira . O nome do meu podcast em Portugal é "Não me gastem". Essa é a sensação: não cansem a minha beleza, não gasta a minha seiva vital. Por que quando era homem participando ninguém achou ruim? "Ai, porque não menstrua...". Que preguiça! Não importa o que tem ali, com quem que é casada, a cor do cabelo. Importa o que ela diz, o serviço que ela presta.

Sobre a criminalização da misoginia, é book one: básico! É só observar o que está acontecendo. A gente vive numa sociedade e não estamos mais na época da barbárie. Tem que haver regras. Milly Lacombe (jornalista) disse: "A gente não usa cinto de segurança? Não tem sinal vermelho e tem que parar?". Gente, não pode ir pra rede social dizer para as pessoas matarem o coleguinha.

Disse que o que mais doeu quando foi agredida por Dado Dolabella foi o julgamento e o zero apoio da sociedade. O que foi fundamental para que tratamento às vítimas de violência doméstica mudasse tanto?

As primeiras se foderem como eu, né? Porque sempre existe alguém que vai cortando o mato. Facilitei pra todo mundo. Alguém precisava fazer isso, né? Porque eu fui saber, depois de ser agredida, que tinham outras quatro que já tinham sido. Se alguém tivesse feito o serviço de cortar o mato pode ser que eu não tivesse entrado naquela estrada...

Mas, hoje, falamos do assunto e entendemos que existem milhões de tipos de violência. Antes, achávamos que falar pra mudar a roupa e tirar o batom vermelho não era violência, que o cara era só meio prego. Hoje, olhamos para trás e vemos quantos relacionamentos tóxicos tivemos.

É muito difícil lidar com o espelho quando se é agredida. Uma vez que consegue passar por esse primeiro trauma, hoje tem a 'delegacia de mulher' o tempo todo nas redes sociais. Não só campanhas de conscientização, mas influenciadoras que estão nas redes falando "não aceite, denuncie". A vizinha pode denunciar independente de ser sua amiga. Todo mundo já entendeu que é obrigação. Tudo isso amplia a possibilidade de não se estar sozinha após passar por essa violência.

Sentiu revolta quando Dado Dolabella anunciou a pré-candidatura a deputado federal?

Ai, gente foi engraçado. Os vídeos dele são engraçados. Olho e falo "Deus do céu, Perdoai-vos, pai, eles não sabem o que dizer". Ele tá cumprindo o papel dele de mentiroso, imbecil, mau caráter, cafajeste... Fico chocada. Revoltada eu fico porque ele ganhou "A Fazenda". Mulheres escreveram: "Vem bater em mim". Isso é chocante!

Vi uma pesquisa que diz que três em cada dez mulheres tem muito mais possibilidade de gozar sozinha do que com alguém...

No sexo, o que menos estou procurando é o meu orgasmo. Não preciso de ninguém pra gozar. Ninguém me faz chegar lá como eu. Nunca marquei, mas deve ser coisa de dois minutos. Com mão, vibrador... Já são muitos anos, a gente já está com a prática organizada. O que quero é me relacionar, ouvir, falar, beijar, cheirar, ser tocada, tocar, receber e dar colo, eu quero receber colo. Gozo é muito fácil.

O que te dá tesão?

Tenho essa coisa do braço, do peito, do músculo, um apego à forma física, que tento resolver na análise. Até elevei um pouco a faixa etária. Mas o negócio do corpinho ainda estou gostando. Preciso me sentir frágil.

Um paradoxo diante do mulherão forte que é... O clássico fetiche da poderosa que gosta de ser dominada na cama.

Exatamente. Gosto de servir. As pessoas falam: "Você não dirige? Como assim? É tão independente". Daí, meu terapeuta fala: "Você não dirige carro porque dirige coisa demais". Ufa! É verdade!

Ainda acredita em casamento?

Tá maluca? Tenho pânico dessa palavra. Totalmente traumatizada. As pessoas vão casar e eu falo: "Não casa!". Vejo na rua e penso: "Quem vai avisar a noiva que tá fazendo a foto?" Sou completamente contra. Não acredito na instituição casamento da maneira como ainda ela nos é entregue até hoje. Quando mudarmos a receita, aí tá tudo legal.

Sobra tudo pra gente. Ok, tem meia dúzia de homem bacana entendendo que é "fifty fifty". Mas é muito difícil uma mulher que virou mãe, ou mesmo que não tenha filhos mas é casada, que se prioriza. Quando temos uma família, a gente prioriza o conjunto. Eles, não, eles se priorizam. Mesmo casada, você está sozinha. Foi por isso que me separei. Se é pra ser desse jeito, aí não preciso ficar trepando com uma pessoa só, pelo menos, quero poder não ser mais monogâmica.

E como é que vaia sua relação com o Pedro Scooby, seu ex e pai do seus filhos. Definiram o valor de pensão?

É pra dar uma nota? Acho que seis e meio, porque aí passa de ano. Estou na Justiça ainda, porque ele me dá três mariolas e eu quero metade do pacote de mariola. Inclusive, não vejo a hora da gente começar a receber pra criar filho.

Amei a sua frase quando Dom, seu filho mais velho, foi morar com o pai, Pedro Scooby: “Não admito que ninguém me trate mal: boy, mãe, pai, patrão...”

Nem filho. A maternidade é uma obsessão, e filho é manipulador. Você vai deixando acontecer porque ama, acha que vai melhorar. Vi que estava vivendo um inferno, com um algoz em casa que todo dia empurrava o punhal mais pra dentro. Consegui ter a grandeza de perceber que a felicidade dele não estava aqui. Ele tinha o direito de viver com o pai. Foi bom para todos. Dom está feliz, nossa relação virou uma lua de mel, Pedro está mais responsável e tem me surpreendido.

A sua coragem em dizer o que sempre o que pensa vem acompanhada de grande exposição: sua, dos seus filhos, da família. Fica todo mundo exposto para o escrutínio do público. Essa é uma questão para você?

Não é. Talvez, o que vá dizer seria injusto, mas eu não vou me melindrar porque o Dom vai passar vergonha. Não vou deixar de falar. Ele vai aprender passando vergonha porque eu passei vergonha com a minha mãe. E ela sempre esteve certa. Sempre a vi lutar pelos pelos direitos dela?

Sua coragem vem daí?

Vem. Com certeza, minha mãe é responsável por 50% da minha força. Ninguém passava na frente dela na fila. Sempre entendi que o direito de um vai até quando começa o do outro, porque minha mãe sempre fez isso.. Não posso deixar de lutar e de falar as coisas. Talvez seja egoísta o que estou falando e não é nem sobre o Dom, mas para todo mundo. Chateou? Vai pagar a terapia, vai tomar o remédio. O que não dá é para ficar no silêncio diante de tantas atrocidade acontecendo.

Sua mãe batalhou na Justiça para ter pensão do seu pai, que para não pagar, abriu mão do pátrio poder. Como se sentiu?

Era um sábado, eu estava enxugando a louça e, do nada, viro para a minha mãe e falo: "Mãe, o meu pai me deu?". Imagina a coitada... "Não, minha filha, ele não te deu, porque você não é um pacote. Mas, ele achou melhor..." E daí não tem muito como dourar a pílula, né? Daí eu tenho uma crise de choro. Mas passou, lavou tá novo. Mas isso gerou um comportamento padrão nas minhas relações com homens. Ainda bem que fui pra terapia com 20 anos. Entendi que estava sempre me relacionando numa tentativa de organizar minha relação com meu pai...

E tinha medo do abandono...

Exatamente. Fazia tudo para o relacionamento estar perfeito. Não podia errar... vai que ele me abandona de novo? A sensação física da pessoa indo embora e você ficando. Minha analista falou: “Você nunca foi embora, sempre foi deixada. E revive a vida inteira o abandono. Cada saída, um abandono de novo.”

Enfileirou boys lixo. Como identificá-los? E um boy bom?

Tenho olho treinado para o estético, o esteticamente organizado, digamos assim. Nunca me interessei por um mais ou menos. Intelectual, inteligente, gentil, generoso... Boy bom eu estou achando que não tem. Agora, boy lixo é bem fácil de identificar: primeiro, o ghosting. Tem uns que demoram dois dias; outros 15 minutos. O último levou um mês e meio. Fiquei até achando... mas quando veio pensei: "Mais do mesmo". Pena, não conseguiu usufruir do bilhete premiado, perdeu, papai.

Muitas mulheres estão tirando a relação amorosa do centro da vida, lugar que ocupam com as amizades...

É uma consciência que vem da realidade. Não existem homens bacanas para se relacionar. E começa a ver como é maneiro “namorar” suas amigas. Se dá conta que homens fazem mal, estão o tempo todo tentando nos tolher, sabotar. Querem nos manter na submissão. Aí, a gente entende que não quer mais, que está mais feliz com amigas. Claro que falta a “assistência técnica” que ando tentando encontrar. Mas, quando amigas contam o que estão vivendo com homens, penso: “Como é bom não ter um namorado, que alívio não ter ninguém me fazendo mal”.

Perto dos 50, que conselho dá às mulheres?

Mulher precisa ter independência financeira! Descubra o que faz bem, foque e vá ganhar seu dinheiro. Não dependa de homem de jeito nenhum. Porque não tem pai, namorado, marido, filho... Quem paga a conta é o dono da bola. E, na hora que ele se irritar, vai te tirar a bola e te manipular. Tinha amigas com carreira de sucesso, analisadas, independentes, gatas. Casaram, tudo lindo. Veio um filho, outro. Aí, pensaram: “Vou pra casa criar filho. É trabalhoso, mas dá muito mais trabalho criar filho e trabalhar fora.”

Se foderam todas! Na separação, o cara tomou tudo ou não deu nada. Quando não está mais tudo bem, a primeira coisa que ele vai fazer é puxar teu tapete. A partir da sua independência financeira, vai fazer terapia, se fortalecer e não vai ouvir desaforo, entendeu?

Muitas mulheres estão organizando a vidas diferente, tirando o relacionamento amoroso da centralidade, lugar hoje ocupado pelas amizades...

É uma consciência que está se criando através da vida como ela é. Não existe homens bacanas para se relacionar. Tem que sair da ilha para enxergar a ilha. Então, você se relaciona, é importante para você. Daí, começa a não viver mais aquilo porque não tem mais. E começa a observar outras coisas. Vê como é maneiro "namorar", casar as suas amigas. Claro que é uma metáfora, mas é isso tem que valorizar quem valoriza você. E aí a gente se dá conta que os homens nos fazem mal, estão o tempo todo tentando nos tolir, nos sabotar. Querem nos manter num lugar de submissão, de subserviência. E entende que não quer mais isso, que está mais feliz com as amigas. Claro que faz falta a tal da assistência técnica que eu ando tentando encontrar. Mas quando amigas minhas contam o que estão vivendo com homens eu penso: "Meu Deus, como é bom não ter um namorado, que alívio que não tem ninguém me fazendo mal". Porque lembro: "cara, vou chegar em casa e ter que trazer o que aconteceu pra resolver". Porque não vou conseguir dormir com aquela grosseria ou falta de consideração que ele e nem notou que fez? É muito ruim quando você é machucada. É difícil desfazer essa dor voltar pro amor de novo. Sempre um cansaço.

Do alto dos 50 anos, que conselho daria às mulheres que gostaria de ter ouvido antes?

O que precisa entrar na cabeça de todas é: mulher precisa ter independência financeira. Descubra o que você faz bem: crochê, massagem, pintura, manicure, bolo, design. Foque nisso e vá ganhar o seu dinheiro. Não dependa de homem de jeito nenhum. Porque não tem o pai, namorado, marido, filho... Quem paga a conta é o dono da bola? E na hora que ele se irritar, ele vai tirar a bola de você. O carro, o cartão de crédito e vai te manipular. Tenho amigas que tinham carreira de sucesso, analisadas, independentes, gatas. Casaram, estava tudo lindo. Teve um filho, depois outro. Aí, penseou: vou pra casa criar filho. É trabalhoso pra caralho, mas dá muito mais trabalho criar filho e trabalhar fora do que só focar em um serão. Se foderam todas! Na hora da separação, o cara tomou tudo ou não deu nada. Porque acreditou no pai dos filhos, no maridão, no companheiro, que enquanto estava tudo bom, estava tudo bom, mas quando não tá tudo bem, amor, é a primeira coisa que ele vai fazer, puxar teu tapete, não dependa de homem de jeito nenhum, ache a sua independência financeira. A partir daí, você consegue tudo, daí você vai fazer terapia, aí você vai se fortalecer de você, aí você não vai ouvir desaforo, entendeu.

 

*O Globo/Cultura