Sábado, 07 de março de 2026
Sábado, 07 de março de 2026
Goleiro da Seleção terminou 2025 barrado no time de Cristiano Ronaldo por limite de estrangeiros: "Não era disputa justa". Ele revela ao ge que família foi para o Brasil em precaução à guerra no Irã
Nome presente nas quatro convocações de Carlo Ancelotti, na seleção brasileira, Bento viveu período de incertezas sob o comando de Jorge Jesus, no Al-Nassr. Entre o fim de setembro e meados de janeiro, o goleiro não fez nenhum jogo do Campeonato Saudita. Só disputou cinco partidas de copas no período de três meses e meio.
Preocupado com a sequência na Seleção, chegou a acertar transferência para o Genoa, da Itália, que não se concretizou. Hoje titular absoluto e líder do torneio nacional, ele detalha ao ge o porquê de ter sido barrado, as negociações para deixar a equipe e a reviravolta inusitada.
— A primeira vez que ele (Jorge Jesus) me deixou de fora, me falou que era um jogo mais fácil, queria um time mais ofensivo, e o Ângelo, teoricamente, entrou no meu lugar de estrangeiro. Cada jogo só pode ter oito estrangeiros e aqui no clube a gente tem dez. Aí depois ele foi me deixando de fora de novo. Ele me levava às vezes para as viagens e me cortava. E isso foi me incomodando.
Na temporada 2024/25, Bento havia sido titular em todas as partidas do Al-Nassr no Sauditão, ainda sob os comandos de Luís Castro e Stefano Pioli. Ao ser barrado por JJ, ele se manteve em contato com Taffarel, preparador de goleiros da Seleção, explicando o motivo de não jogar com regularidade. E também pediu explicações a Jorge Jesus.
— Eu perguntava para ele (JJ) o que estava acontecendo. Eu respeitava a decisão dele, mas não era uma disputa justa, porque eu não disputava a vaga de goleiro em si, eu disputava a vaga de estrangeiro. Eu queria uma explicação mais clara do que ele pensava. Em nenhum momento ele falou: 'Estou te barrando por questão técnica'. Foi realmente por opção tática. E eu comentava com Taffarel da possibilidade de eu sair na janela de inverno do futebol europeu e asiático.
Bento chegou a um acerto com o Genoa, até que, no clássico contra o Al-Hilal, o goleiro Alaqidi, que vinha sendo titular no lugar do brasileiro, foi expulso. Este cartão vermelho imediatamente mudou o futuro do ex-goleiro do Athletico Paranaense.
— Estava tudo certo com o Genoa. Minhas malas estavam prontas em casa para poder viajar. Eu estava assistindo ao jogo em casa e, na hora em que acabasse, eu viajaria. Quando deu a expulsão no goleiro, cinco minutos depois o meu empresário encaminhou a mensagem do dirigente do clube: 'Como você deve imaginar, o Bento não está mais autorizado a viajar'.
Bento é nome frequente da seleção brasileira no atual ciclo. Foi chamado em todas as listas de Dorival Júnior e Carlo Ancelotti. Também foi lembrado no período de comando de Fernando Diniz. O goleiro comentou a "mudança de ambiente" na Seleção desde a chegada do técnico italiano.
— Ele chegou e mudou o ambiente totalmente. O momento da Seleção não era muito bom. Tinha muitas polêmicas envolvendo a direção. Isso atrapalhava. Desde que o Ancelotti chegou, deu uma acalmada. Por ser ele, treinador que dispensa apresentações. Respeito e gosto muito do Dorival e do Diniz também. Tive oportunidade de trabalhar com os dois no Athletico Paranaense. Mas Ancelotti é Ancelotti.
Aos 26 anos, Bento soma seis jogos com a camisa da Seleção. Esteve também na disputa da Copa América de 2024, nos Estados Unidos. O goleiro do Al-Nassr comentou a expectativa às vésperas do Mundial, que acontecerá em junho, no Canadá, no México e nos EUA.
— A última vez que falei com o pessoal da Seleção foi em janeiro. Que eu falei que estava indo para o Genoa, que estava tudo certo, mas depois tive que explicar o que aconteceu (risos). Cria-se a expectativa porque voltei a jogar e estou jogando bem. Estamos mais perto da Copa do Mundo e espero poder ter meu nome na próxima chamada. Meu sonho sempre foi jogar uma Copa.
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Ancelotti e Bento em concentração da seleção brasileira — Foto: Rafael Ribeiro/CBF
Os ataques de Israel e Estados Unidos ao Irã preocupam. Outros países do Oriente Médio foram bombardeados em reação do exército iraniano. Os jogos do Al-Nassr nas quartas de final da Champions League da Ásia foram adiados por conta do conflito.
O clube faz questão de tranquilizar e dar suporte a Bento e aos demais jogadores, que seguem com a "vida normal". No entanto, a esposa e as filhas do goleiro foram para o Brasil por precaução.
— É uma situação diferente para a gente. Não é normal estar perto de guerra e bomba. Tivemos exemplo recente dos jogadores na Ucrânia. Aqui não está sendo tão direto. Mas tenho companheiros no Catar, nos Emirados Árabes... tem sido mais complicado. Por enquanto, aqui a vida está normal, mas fica a preocupação. Por precaução já mandei minha família para o Brasil. Se tiver que sair às pressas, é mais fácil sair um do que a família inteira junto. Não é fácil ficar longe da família, mas eles entenderam.
O Al-Nassr, de Bento, não conquista o Campeonato Saudita desde 2019. Há duas rodadas, assumiu a liderança, ultrapassando o rival Al-Hilal. Com uma série de 12 vitórias seguidas na temporada, a equipe de Jorge Jesus tem o goleiro brasileiro como pilar, já que, neste perídoo de resultados positivos, ele passou oito jogos sem sofrer gols, algo inédito em sua carreira.
— Esse número tão grande foi a primeira vez. É uma marca importante, principalmente por ser na Liga Saudita, que sempre tem placares com muitos gols. Fico feliz de poder fazer parte disso, de ser eu que estou jogando. Lógico que eu não atingi sozinho, mas eu sou o principal, porque eu sou o goleiro, e é o goleiro que leva o gol. Depois de uma quase saída do clube, poder voltar a jogar, jogar bem e já atingir essa marca, foi muito importante.
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Bento conversa com Cristiano Ronaldo em jogo do Al Nassr — Foto: Arquivo Pessoal
Convivência com Cristiano Ronaldo
— Ele é bem dedicado. É um cara que conquistou tudo o que conquistou pela dedicação. E aqui ele segue da mesma maneira. Às vezes eu chego antes dele no treino, mas não é sempre (risos). Mas é um cara que ajuda muito dentro e fora de campo, acho que a presença dele já intimida os adversários. O respeito que ele tem por todos é muito importante também. É um cara muito tranquilo no dia a dia, nas concentrações. A gente sempre conversa de tudo, é um cara que sabe muita coisa de tudo. A gente conversa de comida e ele sabe, conversa de hidratação e ele sabe, conversa de carro e ele sabe, conversa de relógio e ele sabe. É um cara que conversa de tudo, sabe muita coisa do Brasil e gosta muito. Às vezes ele brinca que quer ir lá para o Rio de Janeiro, correr em Copacabana sem camisa para ver se o pessoal vai elogiar ele. É um cara bem tranquilão, gosta da resenha e é muito gente boa.
Trabalho de Jorge Jesus no Al-Nassr
— O que ele tem de diferente é que deixa muito claro a maneira de jogar. Não tem meia maneira de jogar. É claro e temos que seguir aquilo. E também o fato de ele ter experiência na Arábia ajuda muito. Sabe jogar contra as equipes. Contra o Al-Nassr todo mundo quer dar a vida para ganhar de nós. Fica muito claro o jeito de atacar, de marcar, isso é diferencial dele. No dia a dia consegue aplicar isso nos treinamentos para a equipe. Teve sucesso no Al-Hilal e espero que tenha no Al-Nassr mais ainda.
Adaptação à vida na Arábia Saudita
— É bem diferente do que somos acostumados no Brasil. Acabamos estranhando um pouco no início. Foi um pouco difícil até pegarmos o ritmo. Quando cheguei aqui, tínhamos uma filha de dois anos e minha esposa estava grávida da segunda. Tive a segunda filha aqui, temos uma 'arabinha' na família. Foi difícil pelas crianças. Não tinha muitas coisas para elas fazerem. Como é muito quente, não tem como sair para passear. Não é como em Curitiba, que eu morava perto de um parque e poderia sair andando para passear. Aqui as coisas são distantes, cidade bem grande, se faz tudo de carro e com muito trânsito. Qualquer coisa é meia hora de carro. É meio chato. Mas agora estamos mais acostumados, estamos em um condomínio que ajudou bastante.
*GE