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Sábado, 07 de março de 2026

Política externa

Neutralidade e mediação: como Brasil atuaria em eventual terceira guerra mundial

Tradicionalmente, país mantém posição política externa de conciliador e aposta em soluções diplomáticas em caso de conflitos

Neutralidade e mediação: como Brasil atuaria em eventual terceira guerra mundial

Escalada de conflitos no Oriente Médio recomeçou após ataques dos EUA e de Israel contra o Irã (Imagem: REUTERS/Khalil Ashawi - Arquivo)

A escalada do conflito entre os Estados Unidos e Irã desencadeou especulações sobre uma eventual terceira guerra mundial, na qual também estariam envolvidas nações como Rússia e China. Esse cenário, apesar de hipotético, gerou questionamentos sobre a possível posição diplomática do Brasil, que tem ligações com os dois lados envolvidos. Contudo, o país dificilmente adotaria um alinhamento militar.

Ainda assim, o cenário de guerra abre uma possibilidade para que o Brasil tenha protagonismo diplomático, pois, tradicionalmente, o país mantém uma posição política externa de conciliador e aposta em soluções diplomáticas, como um grande defensor do multilateralismo.

E, em outros eixos, é possível destacar a participação brasileira no grupo Brics, o relacionamento estratégico com a China, a cooperação política com a Rússia e a relação com o Irã, um grande fornecedor de fertilizantes ao agronegócio nacional.

Oportunidade diplomática

Professora de relações internacionais na PUC-PR (Pontifícia Universidade Católica do Paraná) e de economia no Centro Universitário FAE, Ludmila Culpi afirma que o Brasil segue uma orientação de autonomia pela diversificação. Por isso, busca não se alinhar totalmente a qualquer polo de poder e manter a neutralidade.

Ainda assim, uma das grandes ambições da diplomacia brasileira é a mediação de conflitos, segundo a especialista. Algumas iniciativas propostas em cenário internacional pelo país demonstram o interesse em ser protagonista na tomada de decisões e de se tornar representante do Sul Global.

Contudo, esse desempenho pode ser prejudicado pela baixa credibilidade do país e capacidade de poder. Além disso, a especialista aponta fatores essenciais para a mediação de guerras, entre eles uma neutralidade percebida e a capacidade de influência direta.

Porém, o Brasil possui a vantagem de ter um bom diálogo com todas as partes envolvidas direta e indiretamente no conflito.

“Quanto a se há possibilidade de o Brasil ter protagonismo diplomático, considero pouco provável, por três razões estruturais: o pouco peso militar, a dependência econômica em relação às grandes potências e a fragmentação do sistema internacional [crise do multilateralismo]. Ademais, o país precisaria resolver outros pontos de inflexão, como a limitada capacidade de liderança regional, a baixa credibilidade internacional e o cenário de instabilidade política interna. Sem isso, o Brasil continuará sendo mais observador do que arquiteto da ordem internacional”, explica Culpi.

Para a professora do curso de relações internacionais da PUCPR Natali Hoff, a posição equilibrada do Brasil pode favorecer uma mediação, mesmo que não seja algo muito formal ou grande. Em um possível escalonamento do conflito, pode ser essa ponte que abra espaço para algum tipo de diálogo que não existe nesse momento.

“A gente também tem um corpo diplomático capacitado, capaz de lidar e responder a esse tipo de desafio. Acredito que o Brasil possa, junto a outros atores que também têm uma posição privilegiada, tentar conduzir esse tipo de diálogo. A gente vai precisar de um grupo de países que consigam, de alguma maneira, mediar por baixo dos panos esses acordos e ajudem a construir a possibilidade de um caminho para um cessar-fogo”, analisa Hoff.

O lado do Brasil

Apesar da ligação do Brasil com as duas esferas geopolíticas envolvidas no confronto, isso não significa um pacto de defesa e não obriga um alinhamento automático, como explica o coordenador do Observatório de Negócios Internacionais da PUC-PR (Pontifícia Universidade Católica do Paraná), João Alfredo Lopes Nyegray.

O especialista entende que a situação cria um dilema de narrativa e de prioridade.

“Na prática, essa posição coloca o Brasil num espaço de atuação que é mais econômico e diplomático do que de segurança: proteger interesses materiais — energia, fertilizantes, logística, inflação — e evitar que o país vire parte do conflito por retórica ou por escolhas simbólicas”, comenta.

No sábado (28), quando a escalada no Oriente Médio se intensificou, o Ministério das Relações Exteriores divulgou dois comunicados para condenar o ocorrido e expressar “grave preocupação”.

No primeiro, o governo brasileiro condenou a ação dos americanos e israelenses contra o Irã. No segundo, solidarizou-se com as nações atingidas por bombardeios iranianos.

Na visão de Nyegray, esse posicionamento preserva a tradição de não alinhamento militar do Brasil e reforça uma imagem de previsibilidade. “Mas também limita a capacidade de ‘influenciar’ o curso da guerra, porque influência real costuma vir de capacidade coercitiva, controle de logística/financiamento ou papel indispensável de mediação aceito por ambos, o que hoje é difícil”, opina.

Guerra regional ampliada

O conflito e a interação de diferentes países aumentou a especulação sobre uma terceira guerra mundial, mas Nyegray diz que, hoje, essa não é a realidade mais provável.

O especialista entende que o que está mais “maduro” é uma guerra regional ampliada com efeitos globais: ataques cruzados, proxies (forças que lutam por interesse de outro país), pressão sobre rotas marítimas e choque energético.

“O ponto de inflexão para algo comparável a uma guerra mundial seria a entrada direta e explícita de outras grandes potências com compromisso militar, não apenas diplomático, ao lado de um dos campos. Ou uma escalada que comprometa de forma prolongada a navegação/energia a ponto de gerar respostas militares multinacionais de grande escala”, diz o especialista.

*R7/Brasília

 
 
 
No contexto da guerra no Oriente Médio, a relação do Brasil com a parte ocidental envolvida — como Estados Unidos e países da Europa — é marcada por laços históricos e forte cooperação comercial, como demonstrou o recente acordo firmado pelo Mercosul com a União Europeia.